Olhos do Sol


 

 

 

Daisy on Blue

Anthony Morrow

Se existissem coincidências....

 

Por algum motivo, todos os textos escolhidos para a atualização do "olhos do sol" dessa semana têm como inspiração, a noite, a lua, dor em alguns, fantasia em outros...

Estão aí... night in blue...espero que gostem

Daisy Melo



Escrito por Day às 13h02
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Presente para Litlle Mary. Minha amiga gatinha e gatosa do http://parlamarieta.blogspot.com/ e apaixonada por gatos como eu.

(Sabe que estou com uma gatinha nova? Ela é branquinha e tão pequenininha que a minha mãe apelidou a coitada de "naniquinha". Pior que pegou! Pra ficar mais chique e ela não reclamar depois, vai ficar Nanikynha, ok? Às vezes ela atende pelo codinome de "pulguinha").



Escrito por Day às 12h58
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Monument Valley Moon

 

Uma lua que sangra dentro do peito

Daisy Melo

A música na vitrola: Clair de Lune. O som do piano misturando-se às buzinas longínquas. É madrugada e a lua desmaia por cima da cidade, cintilando de prata o mar escurecido. Bom para uivos celestinos. Isso se ela fosse uma loba. Mas não era. Bem que queria ser. Ia uivar e gritar até a dor se esvair e desgrudar das suas cordas vocais. Mas não era loba. Era um cavalo isso sim. Um burro de carga. Mas também era gente. E gente sabe fazer doer, sabe fazer sangrar o coração dos outros.

Não importa o quanto nos esforçamos para alguma coisa dar certo. Nem quanto suor e luta foram despendidos na batalha. Trabalhou como um cavalo para aquele cretino. Como se não bastasse o emprego no Shopping, corria que nem louca para chegar em casa, jantar caprichado, banho tomado, perfume no cangote a se preparar para uma noite de ais! e uis! (e quantos ais e uis, meu Deus!, quantos...)

           De manhã era a primeira a acordar. Dentes escovados, preparava o café, o jornal em dia, acordava o filho da puta. Aos sábados, limpava, varria, esfregava, passava. Nos domingos, esperava paciente o futebol, a cerveja no boteco da esquina com os amigos, ela em casa assistindo o Silvio Santos. Chegava caindo de bêbado. Dormia de barriga para cima, roncando. E aí, nem ai nem ui. Até que a outra apareceu.

No começo não quis acreditar. Ele com cara de culpado, dizia “eu te amo. Não sei o que aconteceu”. Ela se fazendo de forte, de difícil, gritava, “Não te amo mais!”. Mentiam, deixando que o ódio escapasse do estômago. E ele foi vomitado pouco a pouco em jatos quentes, fervilhantes e podres.

Aquela lua... sei não. Estava com vontade de uivar. Uma coisa esquisita dentro do peito, surgia emaranhando a dor. Mas antes de sermos dor, somos cavalos. Ou antes, somos gente o que é pior. E gente sabe fazer doer, sabe fazer sangrar o coração dos outros.

Agora ela bebia o vinho e sentia a luz da lua penetrando nos seus poros, no seu sexo, se instalando no coração. Sangrando todo o seu peito.

Fumou o último cigarro. Decidiu.

Saiu. E enquanto caminhava ao encontro da lua, uivava. Não importa se somos cavalos. Podemos ser lobos. Mas somos gente. E gente sabe fazer doer, sabe fazer sangrar o coração dos outros.

Sei não... talvez seja só cavalo.

 

17/10/2003



Escrito por Day às 12h12
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Tatiana Alves

No "Objeto de Desejo" dedicado aos meus amigos, a poesia de Tatiana Alves.

Tatiana é doutora em Literatura pela UFRJ. Escreve poesias, contos, crônicas e ensaios. Foi premiada diversas vezes em concursos literários. Professora de Literatura Portuguesa e Produção Textual da Universidade Estácio de Sá. E é minha professora.

Mares e Marés

 

Sol Nascente, lua nova

Meu castelo é majestoso

Nele mora um beija-flor

Que se embriaga de mim

 

Sol a pino, incandescente

Meu castelo arde em brasa

Nele habita agora um rei

Que me fez sentir princesa

 

Sol poente, noite vindo

A maré agora é alta

E me mostra, lua cheia,

Que era um castelo de areia.

 

 



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 11h58
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Boca da noite

 

No céu da minha boca

flutuam mil estrelas bordadeiras

e eu, louca mastigo uma por uma,

engulo e depois palito os dentes.

 

Do meu ventre fecundado

Nascerão mil astros azulados

pode ser na segunda ou no sábado

enquanto desamarro o bordado.

 

No céu da minha boca

pode noite, pode sol

Pode nuvem e arco íris

pode dia e pode janela.

 

Pode chuva e imensidão.

Pode cachoeira,

Porta e tramela

Bicho, folha, estação

guerra e bala de canhão

 

No céu da minha boca

cabe pai, mãe e filhos,

gente crescente e gente velha

Gente nova e gente cheia.

 

No céu da minha boca

Cabe toda a madrugada

Cabe o boi, cabe a boiada.

E o que vou fazer com isso tudo? Nada!

 

Daisy Melo

03/02/04

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Day às 11h27
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Charles Bukwoski

Meu objeto de desejo de hoje é a poesia "maldita" de Charles Bukwoski

Charles Bukowski é um dos escritores contemporâneos mais conhecidos dos EUA, e alguns diriam que é o poeta mais influente e o mais imitado. Nasceu no dia 16 de agosto de 1920 em Andernach, na Alemanha, filho de um soldado americano e uma mãe alemã e mudou-se para os EUA com três anos de idade. Cresceu em Los Angeles e lá viveu durante 50 anos. Publicou seu primeiro conto em 1944, com 24 anos de idade, e começou a escrever poemas com 35. Morreu em San Pedro, Califórnia no dia 9 de março de 1994 com 73 anos, pouco depois de ter terminado seu último romance: Pulp (1994).

Publicou mais de 45 livros de prosa e poesia enquanto estava vivo, incluindo os romances Cartas na Rua (1971), Factotum (1975), Mulheres (1978), Misto Quente (1982) e Hollywood (1989). Seus livros mais recentes são as publicações póstumas de Open all night: new poems (2000), Beerspit Night & Cursing: The correspondence of Charles Bukowski & Sheri Martinelli 1960-1967 (2001), the night torn mad with footsteps (2001), Sifting Through the Madness for the Word, the Line, the Way: New Poems (2003).

No Brasil os últimos livros publicados são Hino da tormenta (2003) e Tempo de vôo para lugar algum (2004) que correspondem à primeira e à segunda parte do livro Open All Night: new poems.



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 11h22
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Charles Bukwoski

“Oitocentas pessoas pagaram para entrar em um ginásio em Telegraph Hill, ansiosas por ver o autor de Life in a Texas Whorehouse e outras histórias chocantes, aparentemente autobiográficas. A idéia de aparecer diante delas aterrorizava Bukowski. Embora sua aparência causasse um certo impacto, era um tímido inveterado e odiava a si mesmo por ter arrastado seu traseiro até a cidade dos escritores beatnik, um grupo do qual não gostava e no qual não se inseria.
Bebera durante todo o dia para criar coragem. No vôo de Los Angeles pela manhã, no restaurante italiano em que ele e Linda almoçaram e atrás da cortina enquanto esperava a deixa para entrar em cena. Seu rosto estava cinza de medo. Vomitou duas vezes.
"Sabe, é mais fácil trabalhar em uma fábrica", disse ao amigo Taylor Hackford, que filmava um documentário. "Não tem essa pressão." A multidão o conhecia por seus contos, mas Bukowski leu poesia. Poemas sobre bebida, jogo, sexo e até mesmo idas ao banheiro ­ ele sabia que só o título "piss and shit" já os faria rir.
"Vejam, alguns desses poemas são sérios, e tenho que me desculpar porque sei que algumas platéias não gostam de poemas sérios. Mas tenho que ler alguns de vez em quando para mostrar que não sou uma máquina de beber cerveja." Escolheu um poema sobre seu pai, a quem odiara com toda a força.
Chamava-se "the rat":


with one punch, at the age of 16 and ½,
I knocked out my father,
a cruel shiny bastard with bad breath,
and I didn¹t go home for some time, only now and then to try to get a dollar from dear momma.
it was 1937 in Los Angeles and it was a hell of a
Vienna.
...
me? I¹m 30 years older,
the town is 4 or 5 times as big
but just as rotten
and the girls still spit on my
shadow, another war is building for another
reason, and I can hardly get a job now
for the same reason, I couldn¹t then:
I don¹t know anything I can¹t do
anything.

com um murro, aos 16 anos e ½,
derrubei meu pai,
um filho da puta cruel com mau hálito,
e não voltei para casa por um tempo, só vez por outra para batalhar um dólar com a querida mamãe.
era 1937 e Los Angeles era uma grande
Viena.
...
eu? Tenho 30 anos,
a cidade está quatro ou cinco vezes maior
mas tão acabada quanto
e as garotas ainda cospem quando
passo, outra guerra se cria por outra
razão, e não consigo emprego agora
pela mesma razão de outrora:
não sei fazer nada, não consigo fazer
nada.

Parecia que ia chorar quando terminou os últimos e tristes versos, mas mudou de repente e começou a representar o rebelde novamente. "Eu conheço você?", perguntou a uma fã, que fez um pedido. "Não seja insolente, gracinha...", ameaçou, desatando a rir. "Mais uma cerveja e vou pegar todos vocês." Jogou a cabeça para trás, deixando à mostra os dentes estragados, e gargalhou. "Ha, ha, ha. Cuidado!"
Outro fã tentou subir no palco.
"Que diabos você quer, cara? Sai do meu pé!", disse Bukowski, como se falasse com um cachorro.
"Quem é você, algum babaca?" O público gritou e gargalhou. Alguém perguntou quantas cervejas ele conseguia beber. Outros não estavam tão impressionados e exigiam que Bukowski parasse de perder tempo. Eles haviam pago para ouvir sua poesia, não para ver um bêbado. "Vocês querem poemas?", provocou os alunos, antipatizando com suas roupas caras e rostos despreocupados. "Implorem."
"Foda-se, cara!"
"Mais algum comentário?"
Quanto mais bêbado ficava, mais hostil se tornava, e mais hostilidade recebia da platéia. "No final, eles atiravam garrafas", recorda o poeta beat Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights Books, que abriu caminho, à força, para tirar Bukowski de lá, pensando em sua própria segurança.”

(trecho do livro "Charles Bukowski: vida e loucuras de um Velho Safado” de Howard Sounes

 http://www.conradeditora.com.br/hotsite/buk/livro/livro.htm

 



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 10h56
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EM ALGUM LUGAR ANOITECE

DAISY MELO

 

Angel on a Red Horse
by Sharon McCullough

 

 



Escrito por Day às 10h45
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Mas é quando anoitece em mim

que eu liberto meus mistérios,

engulo os sapos, as lagartixas

regurgito as luas e os sagitários

salpico de estrelas meu corpo gélido.

 

Quando anoitece em mim

Meu coração pula como um louco

Tropeça, engasga

Desdiz e se desmancha

Quase sempre por tão pouco.

 

É quando mais me avisto

Minha máscara se desgasta

Mais em nuvem me desfaço

Mais da sua pele me deslumbro

Mais corro para o seu laço.

 

Em algum lugar anoitece,

Anoitece no Japão

Na Tunísia e no Paquistão.

E quando anoitece em mim,

essa noite me arrebata

Eu minto, me despeço, fujo, finjo, me cubro

e me abro...

quanto mais você me despe.

 

02/02/04

 



Escrito por Day às 10h20
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Ruth...

Não sei o que dizer...

E nem preciso.

 

Saber que você existe

É um norte.

 

É suficiente.

Escrito por Day às 19h34
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PRESENTE DE RUTH COHEN PARA O ALEPH.

com todo o meu carinho e gratidão.

After the Rain
Tadashi Asoma



Escrito por Day às 16h02
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Tenha sempre presente que a pele se enruga,o cabelo embranquece, convertem-se em anos...

Mas o que é mais importante não muda;

A tua força e convicção não têm idade.
O teu espírito é como qualquer teia de aranha.
Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.
Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estiveres viva, sente-te viva.
Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amarelecidas...

Continua, quando todos esperam que desistas.
Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.
Faz com que em vez de pena, te tenham respeito. 

Quando não conseguires
correr através dos anos, trota.

 Quando não consigas trotar, caminha.  Quando
não consigas caminhar, usa uma bengala.
Mas nunca te detenhas!!!.
Madre Teresa de Calcutá

 



Escrito por Day às 15h44
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Eu havia planejado (fiz uma listinha imensa por sinal, coisa que, comigo, nunca dá certo), que iria postar meus OBJETOS DO DESEJO uma vez por semana: dois OBJETOS DO DESEJO - um autor, ainda, não reconhecido pela mídia, mas quase lá, e outro, consagrado, que me falasse fundo ao coração. Não consegui. Viver nesse universo de letras e palavras, de amor e arte. Paixão e Dor (víceras, muitas vezes, espalhadas), é complicado. É viver num shopping com inúmeras vitrines e  muito dinheiro para gastar. A oferta está aí. Nós damos. Recebe quem pode.

Não consegui e resolvi postar, então, outra coluna. Homenagearei,nesta,  minha amiga querida e carismática, bruxa e irlandesa. Uma e todas, Maria Helena Bandeira. Ela é tão boa, mas tão boa que resolvi criar uma outra coluna (a única? humm... será?... E as "Cartas do Alfredo? Vejam no próximo capítulo, rs...) e postar alguns contos da moçoila.

Iniciarei com a saga do jazz: Os Cigarettes Blues

Leiam e delirem:



Categoria: "cry me a river..."
Escrito por Day às 00h33
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Os Cigarettes Blues

CIGARETTE BLUES

" Cry me a river... I cried a river over you"

Nem lembro mais o porque do nome da banda. Acho que foi a sonoridade. Ao nosso inglês precário parecia bonito - cigarros e azuis, tristezas e blues, como os que cantávamos imitando Billie.

Então ficou Cigarettes Blues mesmo depois que aprendemos alguma coisa das letras que cantávamos pelos bares da vida. Nas estradas perdemos a ilusão e o blues. Ficaram os cigarros, as tosses noturnas, pastilhas meladas nos bolsos e a guitarra desconjuntada do Billie.

Billie se chamava Edvaldo, morava em Cachambi e tinha um dente de ouro lateral que aparecia quando cantava. O cabelo continuou comprido, sobrevivendo à moda e ao desencanto.

Ninguém se interessava pela música que amávamos, os marginais dos bares sórdidos queriam lamentos caipiras e mais recentemente, sambas abolerados, ou pior sambas rurais, um pastiche absurdo de ritmos, transformados em sopa cáustica que descia pelos nosso ouvidos como lâmina. Fazer o que? beber e fumar que era a sobra após a divisão dos ganhos.

Mimi desistiu primeiro. Arrumou um fazendeiro rico, na versão sonhadora dela, um sitiante remediado segundo as más línguas das banguelas.

Ficamos os três sobreviventes: Marina, Billie e eu.

Marina era bonita, podia ter escolhido vida melhor, mas foi atrás dos Cigarettes bues e das luzes da ribalta. Ficou arrastando perdidas ilusões pelas sórdidos palcos das cidadezinhas minúsculas, em periferias empoeiradas. Seu cabelo brilhante permaneceu com a ajuda da química, mas uma auréola grisalha justificava os traços gastos, as olheiras escuras e a voz rouca.

Tudo isto eu podia suportar. Suportei sempre, mesmo quando o sonho virou pesadelo, pior, virou tédio, vazio, vozes na madrugada, vaias, conversas paralelas enquanto cantávamos, só de pirraça, nossos antigos blues na guitarra desafinada.

Mas quando o cara começou a nos descompor, quando levantou da mesa com sua garrafa de uísque, sua arrogância de freguês rico, quando nos chamou Cigamerdas blues, eu não agüentei.

Lembro de tudo como num filme - eu andando em câmera lenta até a nossa mesa, abrindo a bolsa, pegando o velho revólver companheiro da estrada.. e atirando ...atirando, atirando e atirando... uma bala para a dor... para a humilhação, pelos sonhos desfeitos, outra ainda pelas roupas rasgadas, os cabelos compridos, o dente de ouro, os cigarettes das madrugadas, os blues esfarrapados.. até descarregar o tambor, até me esvair em lágrimas quentes que carregaram embora a visão do sangue, da noite, da vida.

Não atirei no cara, entende?.. não, não foi nele. Foi em nós.

Nos cigarette blues.

Maria Helena Bandeira



Categoria: "cry me a river..."
Escrito por Day às 00h30
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Meu "objeto do desejo" de hoje é a poesia de Emily Dickinson.

Emily Elizabeth Dickinson

Viveu quase toda sua vida em Amherst, Massachusetts, EUA, onde nasceu em 1830. Seu pai, advogado, foi funcionário do Congresso Norte Americano. Tudo indica que levou uma vida gregária quando jovem, mas com o tempo tornou-se reclusa. A forma singular e solitária como viveu permanece pouco conhecida e desperta interesse e curiosidade entre os apreciadores de sua grandiosa obra poética. As tentativas de elaboração de uma biografia mais completa têm encontrado inúmeras barreiras, e sua história, assim como sua obra, permanece repleta de inconsistências e enigmas. Após sua morte, em 1886, foram encontrados, entre seus papéis, cerca de mil poemas. A primeira edição de Poemas (1890) obteve um grande êxito. A vitalidade de sua obra a coloca entre os maiores poetas estadunidenses. A primitiva simplicidade de suas estrofes se equilibra com audaciosa complexidade sintática e rítmica, além de flexibilidade no uso das rimas. Seus temas incluem as questões essenciais e existenciais do ser humano: a vida e a morte, o cotidiano, a mente e a natureza, Deus. Sobe o estilo conciso da poetiza, a tradutora Lucia Olinto, autora do livro Dickinson, Emily, 75 poemas (que recomendo entusiasticamente), expressa: “São poemas ‘apertados’ e às vezes quase sufocantes ...”. Eu tenho exatamente a mesma sensação... acrescentaria que os poemas de E. D. me parecem expressões contidas (mesmo não tendo sido escritos para divulgação à sua época), como pequenas gotas de um oceano oculto que precisaram atravessar árduo caminho até chegar à luz do dia. Os poemas de E. D. devem ser lidos muitas e muitas vezes, são poucas e simples palavras com muitas idéias, imagens e percepções que a cada nova leitura se ampliam e aprofundam.

http://www.casadacultura.org/Literatura/Poesia/Biografias_Poetas/grupo097_

Lingua_Inglesa/Emily_Dickinson.html

 



Escrito por Day às 00h22
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What if I say I shall not wait!

What if I say I shall not wait!
What if I burst the fleshly Gate --
And pass escaped -- to thee!

What if I file this Mortal -- off --
See where it hurt me -- That's enough --
And wade in Liberty!

They cannot take me -- any more!
Dungeons can call -- and Guns implore
Unmeaning -- now -- to me --

As laughter -- was -- an hour ago --
Or Laces -- or a Travelling Show --
Or who died -- yesterday!

E se eu disser que já é demais!

e se eu disser que já é demais
e arrebentar portas carnais
e extrapolar compassos?

e se eu limar até o sabugo
além da dor além do luto
e liberar meus passos?

ninguém me pega mais - nem morta!
corram masmorras com revólveres
nada mais faz sentido

como o sorriso - nem me lembrem!
laços & fitas - shows mambembes
e o que morreu - comigo



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 00h13
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OBJETO DE DESEJO

Inauguro, hoje,  uma coluna onde postarei textos que considero marcantes ou instigantes ou belos ou alegres ou, ainda, tristes... De amigos, conhecidos, desconhecidos ou mesmo de autores consagrados e importantes para mim. Sabe aqueles textos que desejaria ter inscrito, um dia? Pois é... Chamarei a coluna de "OBJETO DE DESEJO".

Começarei com Rubens da Cunha, autor catarinense, meu amigo muito querido, que além de ser um poeta instigante e talentoso é um cronista dos bons, sempre pincelando em seus escritos tons de lirismo e poesia,  transformando em beleza, aquilo que costuma ser tão comum. A crônica abaixo, que também pode ser encontrada em http://an.uol.com.br/2005/out/19/0ane.htm, reflete a minha "estranheza secular".

Espero que gostem!



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 00h09
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Rubens da Cunha

Um dia comum

A vida segue seu labirinto. Cidades formigam. Comerciantes cumprem suas rotinas de ofertas, descontos, créditos e cobranças. Um olhar mais demorado nos costados de uma loira é o que salva o dia do taxista. Porteiros, operários, bancários, empregadas domésticas, advogados, se adestram ao horário de trabalho. Dois homens parados, na frente do mural com ofertas de emprego, precisam tanto deste adestramento.
Na altura dos olhos, o aviso: "Favor não folhear a revista". A moça o lê ao mesmo tempo em que folheia a revista para saber porque Adriane Galisteu é rica e desiludida. O menino dá um papel de bala para a mãe dentro do ônibus. Ela abre a janela e liberta o plástico no mundo. No banco de trás, uma senhora sorri irônica adivinhando o futuro da criança.
Alguns têm a preferência no INSS, no posto de saúde, no cartório, na vida, porque conhecem o primo do atendente. Outros esperam o tempo sempre lento dos "desparentados".

Pequenas leis oficiais de trânsito são tão descumpridas a ponto de se tornarem leis melhores: a calçada serve também para os carros; atravessar a rua na diagonal é mais rápido para os pedestres; parar em fila dupla na frente da escola é plenamente aceitável; "não vire a esquerda" tem a exceção do quando "não vier ninguém, pode virar". Alguns guardas tentam pôr um pouco de ordem no caos, enquanto um outro alivia a infração em troca da sagrada cervejinha.
No país-continente, as grandes notícias se mantêm dentro da normalidade: uma seca que se tornou nômade: do Rio Grande do Sul foi para a Amazônia. Um referendo fronteiriço ao inútil: faz uma pergunta que nenhum dos dois lados sabe exatamente como responder. O jeito é desfilar uma lista de argumentos emocionados. O referendo, igual a qualquer campanha política, se tornou mais uma guerra de publicitários. As eternas corrupções embelezando os discursos. Nada como a queda alheia para tornar um senador, ou deputado, o último pilar da moralidade. Mais uma vez nosso principal produto de exportação é atacado por uma doençazinha terceiro mundista muito da fajuta. Mais uma vez a culpa é de todos e de ninguém.  

O grande traficante vem parar na ilha em que ele, provavelmente, nunca pôs os pés, nem como bandido nem como turista. A transposição do rio São Francisco causa polêmica, mas quantos ribeirinhos sabem o que é transposição?
Nas cozinhas comunitárias, albergues, instituições humanitárias, a solidariedade conduz a vida distanciada das desordens públicas. Os casamentos continuam a ocorrer.  Ninguém gosta, mas todos vêem Sol, Tião e o boi Bandido. A alegria do brasileiro continua em alta. Somos o país do futuro e isso não é pouco. Ao fundo de tudo, pode-se ouvir Adriana Calcanhoto resumindo a ópera: "Lanço meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada".

 

Mais Rubens da Cunha em www.casadeparagens.blogspot.com



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 00h07
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Hidrofobia

Daisy Melo



Escrito por Day às 23h42
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Você diz que tenho palavras sedutoras

Mas as palavras não são minhas

Eu as escuto nos murmúrios da brisa

E as entrevejo entre as fendas rochosas que sedimentam meu coração. 

Meus versos não são meus

eu os roubo das páginas que folheio

e os releio nos sofrimentos alheios

que descubro ­­¾ perplexa ¾ pendurados no reflexo do meu espelho.

Minhas palavras surgem da urgência das letras

e vêm descoladas no sorriso que disfarça

a dimensão do medo. 

Ao rasgar a minha pele

desencapar meus ossos

e escapar de mim. 

Cuidado com minhas palavras sedutoras

elas existem para isso.

e só. 

Julho/2003



Escrito por Day às 23h38
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Quadrangulares

 

Beyond Square II    Alfred Gockel



Escrito por Day às 23h21
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        Uma réstia da luz do sol passa esquartejando a cortina de sarja bege. Bom-dia. Eu olho em torno e percebo no teto, na luz brilhante de partículas de poeira, uma seta luminosa descendo em riste, ferindo o assoalho de tacos de madeira, antigo e desbotado. A luz brinca, se encolhe, se estica, tremelica e pousa reta na mesa da cozinha onde o pão e a manteiga esperam solitários. Aqui dentro sou noite.

Levanto, estico-cansaço-o-peso-do-mundo inteiro. Arrasto as chinelas de quadrados cor-de-rosa puídas e finas como folha de papel. Encho de água a chaleira enquanto coço a cabeça-diabo-mais-um-dia. Desperto. Aqui dentro durmo.

A água ferve, se agita, apita, estremeço. Olho no paralelogramo de lados iguais da janela, a rua lá fora. Os carros passam num movimento-pare-siga. Aqui dentro sou câmara lenta. Meia-fina, batom-perfume. Escova no cabelo-faço-pose. Despojada de amor próprio me encaro com os olhos fechados. Uma imagem ainda-bela-ainda-jovem, esquadrinhada na moldura do espelho, me lembra um filme que esqueci. Pudera... Por dentro sou estátua.

No elevador me acuo num dos cantos-ângulos-retos.  Uma caixa hermeticamente fechada, onde meço meus passos: um-dois-três-quatro e viro. Um-dois-três-quatro e viro. Um dadinho de azar que desce rápido. Mas por dentro sou lentidão.

Saio no dia e engolfo as pequenas brisas que ventam na superfície áspera da minha pele eriçada. Por dentro sou toda macia-hidratante.

Meu corpo é anguloso e esguio, ereto e firme, percebo no some-aparece no vidro da vitrine. Por dentro sou toda curvas, redonda, macia e quente. Bunda e pernas.

O metrô solavanca e a vida passa cinza-rápida-rápida pela tela da janela. Mas por dentro sou espera enquanto meu ângulo reto é perpendicular a linha da meia que desfia. Cubro-me, sinto frio de ar condicionado. Aqui dentro estou nua.

Na mesa quadrada, o visor brilha uma luz de fantasma. Eu lá, quadriculada, querendo sair. E o sorriso bordado-entre-dentes perfeitos à custa de aparelho e clareador. Sim-senhor-não-senhor. Por dentro sou gengiva.

E bato o ponto. Por dentro me solto, me livro, me desamarro. E recomeço. De-novo-de-novo-de-novo. 

Sou círculo. Dentro e fora.

Daisy Melo

Escrito por Day às 23h20
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Digo

Poderia dizer da minha imensa solidão

sepultando meu coração vazio 

Mas não digo

Pois a dor é trancada

o peito parco

e o tempo...

o tempo...

 

Poderia dizer do lençol embolado

mortalha do meu corpo roto 

Mas não digo

pois a cama é bamba

o quarto pouco

e o mofo...

o mofo...

 

Poderia ainda contar da

escuridão de onde nascem minhas horas 

mas o amanhecer é longe

o casaco curto

e o frio...

o frio...

 

Então leio tais versos

Escuto silêncios

pensares imersos

E a vida...

a vida...

18/04/02



Escrito por Day às 23h10
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Adriatic Neighbors
by Henrietta Milan

No tempo das carambolas...

 

As árvores eram altas e as pernas do meu pai tão longas que chegavam em Dublin.

Um quintal e umas ameixinhas amargas. Mas eu principiava a achar tudo bom.

Casa branca, varandinha minúscula, um mistério: para que porta que nunca se abre?

A tartaruga atacava o dedão caso ele estivesse com unhas pintadas de vermelho-cor-de-tomate. 

Era doidinha por tomate.

Bomba-Relógio, o galo, lavava os pés-de-galinha caso quisesse entrar, pois a casa tinha cheiro de mofo e limpeza. Um frio de séculos e lápis de colorir.

Eu principiava um sorriso meio fosco, meio tosco, um meio sorriso que nunca desabrocha do tempo que nunca era e nunca chegou.

Por que cisma em ficar na minha lembrança se nunca existiu?

 

Daisy Melo

Escrito por Day às 22h52
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Criação

                                                                                                                                                                      

Do tempo

sou lenta

como se medo não houvesse

de envelhecer....

De passo em passo

a cada mil passos

sou meio passo

de pássaro.

Tecendo um ponto a cada mil

pénelope desfaço mil pontos

o ponto esgarça

refaço mil letras

geradas enfim,  nas entranhas

 

Sofro

 

                        Sofro de parto.

 

Talvez eu exista para isso.

Daisy Melo



Escrito por Day às 22h40
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Um dia escrevi esta poesia, inspirada pelo eclipse da lua que assisti do meu quintal. A poesia inspirou o desenho à lápis de cor, onde represento meus gatos. Na época, estavam todos vivos, com exceção de uma, a Pamina, a gatinha cinza. Mas ser gato no mundo dos homens é tarefa árdua e muito perigosa. Hoje do desenho, só me  restaram duas: Vivi e Tchutchuca.

No dia em que a lua se apagou no céu

coloquei a cadeira no quintal e assisti a noite;

iluminei o escuro com a vela que cismava em apagar,

e sacudi o ar com cheiro de rosas vermelhas,

para acordar a minha deusa escondida.

 

Um véu  passou nos olhos da lua,

e ela piscou para mim

por detrás das suas pestanas cerradas.

 

Meus gatos entoaram um coro respeitoso

e assistiram ao sono da lua com jeito de cerimônia.

 

E quando a lua acendeu o céu

meu coração se desprendeu do tecido da noite;

inventou com o pó das estrelas que prateava o mundo,

alguns passos novos e soltos

e acompanhou meu corpo nu

dançando ao uivo dos cachorros loucos.

 

 16/05/03

 

Tchutchuca

 

 

Vivi



Escrito por Day às 22h38
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Sobre sorte, talentos e guarás.

 

Daisy Melo

Nunca tive sorte.

Ou talento... Mas inventei que tinha.

Acreditaram.

Da mesma forma que acreditaram que eu escrevia.

Não é fácil misturar umas palavras bonitas diante da impotência da página nula. Mas eu inventava. Ainda quando a palavra me dilacerava inteira, transformando em desalento as minhas frases inexatas. Mesmo quando o óbvio da grafia imprecisa transformava em luz minhas insignificantes metáforas.

Inventei que era simpática, bonita. Nem me olharam... Só aceitaram. Enganei todo mundo. Pensando bem, tive sorte. E talento. Afinal, quem consegue enganar todo mundo, todo o tempo?

Mas cansei. E hoje, com o coração murcho e amargo (a pele tão fina e branca que se saio ao sol desboto e fico que nem papel de seda enrugado), abro minha página derradeira (aquela com um marcador amarelo de antigo e sujo de descaso) e vejo que está vazia da flor seca que marcou, um dia, meu desejo esquecido. Cheguei numa idade em que posso tirar todas as máscaras, destravar o baú e remover de dentro as roupas sujas com cheiro de mofo e suor. E colocar, enfim, meu corpo de savana, já seco das lágrimas que percorreram meus desvios e atravessaram meu leito de caatinga.

Eu, toda olhos de estiagem.

Tenho talento para abortar as recordações de um tempo há muito ido. Tão esquecido que nem mesmo sei se existiu. Mas estou feliz com meu destino.

Voarei em direção ao pôr-do-sol, ultrapassarei o píer e o mar. Farei malabarismos no céu — eu, uma guará gorda e velha — e muxoxos para os urubus escrotos que estarão comendo o cadáver de um gato enquanto eu saborearei um suculento filé de tainha.  Sou uma garça solitária e única. Meu talento: viajar sobre o mar. Uma garça em extinção.

 

www.anjosdeprata.com.br (aproveitem para ler os lindos textos dos outros anjos de prata!)

Escrito por Day às 22h27
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daisy (anglo saxão): olhos do dia; olhos do sol: miniatura simbólica do sol...a nossa popular margarida...

(mensagem postada em 17/10/2005)



Escrito por Day às 22h01
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Finalmente deixei a preguiça mental de lado e construí o meu Blog. Agradeço aos amigos que me incentivaram e estimularam. Espero que gostem.

Vamos ver como me saio.

mensagem postada em 17/10/2005



Escrito por Day às 21h59
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