Olhos do Sol




Escrito por Day às 22h20
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Daisy
Jeff Long

 

 

Ok...Ok.. estou atrasada na atualização dos “Olhos do Sol”

 

Explico: fiquei dodói.  Um medo terrível de ser a tal gripe das galinhas, mas acho que sobrevivi pelo menos a esta.

 

Ainda teve o tal do cabo que se enfia no modem e se liga ao computador que estava rompido e que só percebi no sábado à tarde. Moradora da Pedra e tal...só pude  resolver na segunda. E meus dias da semana são tomados, juro..

 

Não pude ir ao lançamento do livro do meu  amigo Hugo Gruenwald. (Por causa da gripe e não do cabo)

Mas acho que já  me desculpei a contento.

 

Até  lancei uma  nova coluna!

 

Mas vamos a atualização:

 

  • Uma crônica minha “No balanço” falando da linda Pedra de Guaratiba
  • A nova coluna (graças ao Hugo)  um vôo sobre o mar e as letras
  • Uma poesia de Hugo Gruenwald..
  • No “Objeto de Desejo” um conto  de Machado de Assis  - nosso gênio maior.
  • Uma poesia minha Palavra Minha” onde brinquei com a poesia do Leminsk
  • Na coluna Ah, se eu tivesse escrito isso...o conto do meu professor Lucio Valentim, baseado no “Missa do Galo” nesta atualização, do Machado..

(Não! Não to precisando de nota na matéria dele, não! Qualé!  Literatura Brasileira?? Nada me toma mais do que ela. É ela, o meu desejo. A homenagem é porque o conto do meu professor É MUITO BOM!! Leiam e saberão que escrever alguma coisa baseado no texto de um grande mestre é preciso muito,  mas muito talento e muita...coragem.

 

E antes  de tudo o convite para o lançamento  da sexta Antologia  dos Anjos de Prata  (eu estou , lá!! eu estou  lá!!) 

 

mil beijos,

Daisy (livre de vírus galináceos)

Escrito por Day às 21h45
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No balanço

 

Wild Rumpus
Maurice Sendak

 

Daisy Melo

 

Não vou falar de guerra, nem de destruição ou medo. Minha luta hoje é contra uma palavra que sobra, a rima que esqueço, a virgula mal comportada. Impeço o estresse e pronto, opto por desistir por ora e vou caminhar na praia.

 Pedra de Guaratiba ainda não perdeu o ar de vila de pescador, de coisa de antigamente.  Que ela não se vá para sempre. Que Netuno nos ajude. Oxalá!

Está nublado. Choveria muito ainda. Hoje, 2 de novembro é dia de finados. O povo está feliz apesar do insólito do dia. Mas é feriado, afinal. Pagode no bar esquina, pessoas passeiam na rua, a rapaziada joga futebol... namoros novos se engatam. Enquanto caminho, ouço risos e vozes de crianças que brincam... onde? Não encontro e continuo a andar, mas logo sento num banco de pedra com o mar imenso se desmanchando na minha frente. A maré enche e o horizonte, apesar da promessa de chuva, está lindo: o cinza se mistura ao chumbo do mar e pequenos barcos balançam, bailam nas ondas mínimas. De vez em quando um restinho de vermelho ¾ final de pôr-do-sol ¾ teima em escorregar por entre as nuvens. Os guarás voam e mergulham na tentativa de abocanhar algum pedaço de peixe.  Anoitece de pouquinho e o céu de repente me presenteia com inúmeros tons de lilases e verdes. Desejo saber pintar ou pelo menos bater uma fotografia a fim de perpetuar aquela imagem, mas fico ali parada, sorvendo o momento mágico, a visão.

Duas meninas caminham entre o mar e a areia. Oito anos? Seis? Mini-saia jeans, sandalinhas de plástico transparente, camiseta branca, um bichinho qualquer estampado no peito, cabelos castanhos; a outra, cabelos negros e lisos, shorts brancos, blusa rosa choque. De banhos recém-tomados, riem, brincam. Quando chegam na enorme amendoeira plantada perto do banco onde me sento, ouço assobios, uivos, gritos: quatro meninos, pendurados, se equilibram nos galhos como macaquinhos urbanos. De chinelos, sobem e descem pelo tronco retorcido da velha árvore.  Elas reconhecem os amigos, pedem a corda e então, uma de cada vez, como Janes tupiniquins, se balançam penduradas. Fascinada, demoro longo tempo olhando a brincadeira: elas vêm e vão como as pequeninas ondas do mar. Teria coragem de pedir para brincar também? Não tenho. Sorrio. Passei da época de me pendurar em cordas, mas nas minhas saudades, relembro uma mangueira de troncos imensos em Sepetiba, na casa do meu avô. Teria, talvez a mesma idade dessas meninas. E eu lá, a própria Jane...

Ao longe o pagode, gente jovem, cerveja, risos. Por um momento, no dia dos mortos, os vivos esqueceram a dor, algumas crianças brincam e não têm fome nem medo.  O mar vai e vem, como sempre e como sempre esperamos que seja.

Oxalá...



Escrito por Day às 18h47
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Um vôo sobre o mar e as letras

 

Canada geese fly in a gro...
Raymond Gehman

Inauguro nesta autalização, uma nova coluna: As Pérolas da nossa Zona Oeste.

Já me questionaram uma vez, porque os artistas da Zona Oeste do Rio de Janeiro se fecham num "gueto". Ora... como eu "estou" Zona Oeste há quatro anos - sempre fui Zona Sul (até então) - posso dizer com propriedade e neutralidade que eles precisam, sim, lutar com garra. Mais garra que qualquer outro. E quando conseguem alguma coisa, merecem bater no peito e dizer: sou um artista da Zona Oeste.

É esta a realidade que vislumbro diariamente. E é a Zona Oeste, aos Anjos de Prata (www.anjosdeprata.com.br), e a minha análise pessoal, que agradeço ter conseguido tirar da gaveta meus escritos adolescentes e vê-los amadurecerem letra a letra.

Então...decidi que toda semana vou colocar aqui um artista da tal Zona que escolhi para morar e desabrochar.

Deleitem-se



Categoria: Pérolas da nossa Zona Oeste
Escrito por Day às 18h29
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Um vôo sobre o mar e as letras

Hugo Gruenwald

Hugo Gruenwald é meu amigo. Posso considerar assim. Choramos nossas mágoas, rimos do nosso destino, recitamos nossas poesias, batemos longos papos..

Admiro a capacidade do Hugo de pegar um pedacinho de madeira e transformá-lo em brinco, pássaro, mulher.

Hugo é um escultor. E um poeta. E faz  sua arte de frente ao pôr-do-sol da Pedra de Guaratiba...

É pouco?

Hugo lançou seu primeiro livro de poesia no sábado passado dia 26 de novembro.

Infelizmente eu não pude ir. Uma gripe "de galinha"  me deixou de cama.

Mas vai aqui meu carinho e minha amizade:

FLUXO E REFLUXO

Conch In Surf
Ruth Burke

 Mar, vento e tempestade.

Maré alta, maré baixa.

Nesse vai e vem

Sou gente também.

Eu sinto momentos perenes.

Esquecidos no tempo e espaço.

Relembro amores perdidos....

Mais uma vez maré alta,

Outra vez eu vivo.

Você mar, fluxo e refluxo.

Eu rocha estática

esperando...

                          esperando...

                                            esperando...

09/06/02

 

 



Categoria: Pérolas da nossa Zona Oeste
Escrito por Day às 17h48
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Machado de Assis

 


Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que freqüentará o autodidata Machado de Assis.
  
De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando.
  
Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender.  Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais.
 
Aos 16 anos, publica em 12-01-1885 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.
 
Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre.  Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.

Em 1858 volta à Livraria Paulo Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias.

Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada(onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) e Jornal das Famílias.
 
Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor.  No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais.
 
Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas.

 e etc..e etc... vejam em www.releituras.com.br (estou lá, em novos autores...dêm uma olhadinha, não custa nada.rs)



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 21h52
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Machado de Assis

Missa do Galo

 

 

Angel from Above
by Hua Chen

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 20h27
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Continuação...

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

- Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

- Ainda não foi? Perguntou ela.

- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.

- Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

- Não! qual! Acordei por acordar.



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 20h13
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Continuação...

 

- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.

- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

- Justamente: é muito bonito.

- Gosta de romances?

- Gosto.

- Já leu a Moreninha?

- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.

E logo alto:

- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...

- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

- Já tenho feito isso.

- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

- Que velha o quê, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite.



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 20h10
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Continuação...

Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

- Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

- Eu também sou assim.

- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 20h06
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Continuação...

- Foi o que lhe aconteceu hoje.

- Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

- Mais baixo, mais baixo...

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

- São bonitos, disse eu.

- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 19h58
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Continuação...

A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"

- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

- Já serão horas? perguntei.

- Naturalmente.

- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.

-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

 

 

Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.

 

 



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 19h56
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Palavra Minha

 

Acordei assim-assim...

Um desvio, um novelo

Fazendo nó no meu umbigo

Em forma de pesadelo.

 

Uma nuvem que era minha

Dentro de mim chovia canivete

Era domingo

E os domingos são piores com a musica do faustão.

 

Tento a palavra que vazia quebra na próxima esquina.

Palavra, palavra minha!

Saio correndo, busco por ela

Mas ela dá um tchauzinho e entra no táxi.

 

Percebo alguma ironia

No seu ar doutoral?

(a palavra não era minha, afinal)

 

Droga, esqueci o guarda-chuva

Faço sempre o caminho mais difícil

Como me faltam palavras

Plagio o Leminski.

 

Daisy Melo

14/07/03



Escrito por Day às 19h48
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Ah, se eu tivesse escrito isso...

 

Beautiful Woman
Amedeo Modigliani

 

Conceição, Conceição!

 

 

"Dico, che quando l'anima mal nata..."

       (Dante, Inferno, Canto V)

 

           Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora - bem, não era propriamente o que se poderia chamar de senhora, tampouco uma donzela -, e isto não faz tantos anos assim. Entrava eu na casa dos "enta" (conheces, caro leitor, a contagem dos "enta", aquela que nos leva em seqüência até o fim do túnel?); ela, numa idade indefinida entre os quinze e os vinte. Vinte? Pois bem. Havendo combinado com uns amigos irmos à missa do galo (brincadeirinha: a verdade, hipócrita leitor, meu semelhante, é que íamos mesmo é para um embalo-de-sábado-à-noite), foi aí que a conheci. Assim.

            A casa onde ficaríamos hospedados (quanto eufemismo!), digo, a casa onde todos íamos cair naquela madrugada, quando voltássemos da farra, não era um cortiço, não era sequer um puteiro, tampouco chegava a ser de fato o que se identificaria como lar. Conceição, a dona da casa, (olha, este foi o nome que ela me deu para a ocasião, viu?, pois bem que poderia também se chamar Laura, Eneida, Inês ou Beatriz) não era uma prostituta, nunca tinha ouvido a canção do Cauby, mas trazia no rosto traços de uma ingenuidade amarga; muita carência, talvez, sabe?, mas dissimulava - assim como já o fizera Capitolina, lembram? Conceição possuía um temperamento moderado, sem extremos: nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Na verdade ela era o que costumamos definir neste final de século em que vos falo como garota de programa ou, no inglês de Copa, scort girl. Era para lá que iríamos, imaginando que Conceição pudesse saber de sexo como poucas - e isto para ela talvez equivalesse a amar. Eu me lembro muito bem.

            Naquele dia era a primeira vez que ligávamos para aquelas mulheres. Queríamos a noite; alguma diversão, nada de stress. Quando chegamos, Conceição atendeu-nos com um roupão de seda, desses que vinham do Paraguai, entende?, mas chic; pela transparência, via-se: não veio sobre chinelinhas, mas também não trajava calcinhas - maravilha -, pisava era com uma sensual sandália de salto agulha, finíssimo e longo, como um punhal.

           



Categoria: ah, se eu tivesse escrito isto..
Escrito por Day às 09h36
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Continuação...

           Não preciso dizer que ela era boa, muito boa. Perguntou se eu não conhecia sua amiga, apresentando-a, uma moreninha que sentava sapeca no sofá da sala deixando pendentes os seios e fazendo movimentos obscenos com os lábios. Não tardaram a aparecer pequenos e grandes também. A estas alturas todos se davam contam do que viéramos ali fazer - e de que Conceição preferiria a princípio dedicar-se a mim. De fato, cada qual tomou seu rumo e lugar.

            Assim que a moça aproximou-se, comecei a dizer-lhe nomes infames, palavrões; ondas de beijos lascivos, beliscões e xingamentos levemente sussurrados ao ouvido - como manda o figurino -, pois afinal tudo era mesmo um grande mis-en-scène: fazia parte, percebe? E a moça não deixava por menos. Lembro: pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa (talvez não fosse mesmo de mármore, mas isso agora também não importava muito), o que vale é que com esse movimento eu, que estava numa privilegiada posição, via-lhe as duas metades em simetria do traseiro, muito claras, e menos magras do que se poderiam supor. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. (Não, leitor obtuso, não houve o prometido, tampouco o esperado, dadas as circunstâncias.) Porque, a certa altura da coisa, a moça desvencilhou-se e, como se tomada por alguma reminiscência,  cismou de passar-me algo como um café, dizendo uma série de coisas ininteligíveis, papo de tirar tesão, sabe?, como diz o outro. Confesso: já me acontecera antes - e em episódios até menos rodrigueanos -, pensava. Mas, tudo bem.       

           Passava da meia-noite e, agora,  para matar a tensão, comecei a dizer o que pensava das festas da cidade e de outras coisas que me vinham à mente, talvez a sugerir com isto que já me fosse embora. Parecendo não entender, a mulher argumentava que todas as festas se pareciam, que não valeria a pena etc, para que eu ficasse, o café era quase fresquinho, havia também uns bolinhos: eu tenho um sobrinho que fez aniversário, sabia? Teve uma festinha etc etc etc. Não entendi.

            Já vestida, deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado. Não, não era em um canapé, caro leitor; estávamos mesmo no chão. Lembro que, quando então a moça se debruçava para sentar, voltei-me, e pude ver, a furto, o bico dos seios; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se. As calcinhas, recordo-me, eram pretas, talvez até rendadas. Foi nesse mesmo instante que, a custo, fechei a boca para ouvir o que ela contava, enquanto sorvia sem gosto o tal café.



Categoria: ah, se eu tivesse escrito isto..
Escrito por Day às 09h34
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Continuação...

           Saíra da periferia muito cedo; aos 11 já tivera seu primeiro homem; a chamada vida fácil veio na seqüência. Passou a gostar do que fazia, mas quando pensava em vingança, contudo, não era bem isso o que queria, percebe? À certa altura, a moça não tinha mais os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes. Disse que foi barra, coisa feita pelo próprio pai - não pasme, leitor! - que a bolinava nas madrugas. A mãe fingia não saber sabendo; via mas calava; então o medo, e não só: o asco, o nojo, o ódio compunham sua macabra sinestesia. Enquanto dizia isso suas mãos tremiam - estranho - como se tivesse arrepios. Ela, que era até uma figura linda, perdia ali quase todo o brilho. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que a perseguia um pesadelo recorrente desde criança: despejava água fervente sobre as têmporas do pai e via-lhe sair dos ouvidos vermes que se multiplicavam aos bandos. Dizendo isto, ria-se como uma bacante, despejando o café, como se regasse uma planta maldita e etérea, sobre uma foto que jazia na pequena estante do quarto. Quem será?

            Quando cansou do passado falou do presente. Disse que precisava representar seu papel, que precisava cuidar mais do filho que vivia com a mãe que ia fazer seis anos e que há dois anos não o via etc. Concordei, para dizer alguma cousa, isto é, coisa. Queria acabar logo aquela conversação, afinal, estava ali por propósito muito bem distinto (o cartaz nos classificados prometia - e pagamos um bom preço). Já amanhecia, talvez cinco ou seis da manhã.

            Há impressões dessa noite, que me parecem truncadas ou confusas.         

            Que história louca. Depois de chorar baixinho disse que podia trabalhar de novo, se eu assim o quisesse. É claro que se havia perdido todo o tesão nos confins da manhã. Recusei. Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. Numa vitrola distante e imaginária Cauby gritava: Conceição, Conceição! Com um balanço de corpo, Conceição entrou sabe-se lá pra onde, batendo a porta - e eu saí na manhã sem destino.

            Mais tarde descobri que Conceição morava no Engenho Novo e que a casa onde ficáramos (o que chamamos aqui de casa, leitor, em verdade não passava de um kitinete) pertencia ao homem que a patrocinava - e que (também descobri) era o mesmo da tal foto, lembram? Nunca mais a encontrei e nem a outras Beatrizes ou Eneidas ou Lauras.

            O sol da manhã queimava, e não era o inferno de Dante

 

Lucio Valentim



Categoria: ah, se eu tivesse escrito isto..
Escrito por Day às 09h31
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Poesie
Gustav Klimt

                                                    POESIA

Daisy Melo

 

 

 

Ela espera endiabrada

o momento em que estou frágil e sonho.

Aí, sonho adolescente com outros reinos, outros verdes, outros príncipes,

ainda que durante o minuto da música.

Ela me quer apressada

E ri gananciosa à espera...

enquanto me desequilibro sobre os pés e me arrasto nos meus restos rotos, raízes insalubres.

E mesmo assim a louca brinca com meu sonhar e meu desejo.

 

E goza! E goza...

 

Sabe que nada me resta para além.

 

Tirana poesia.

 

25/02/04

 



Escrito por Day às 16h47
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A velox me deixou todo o dia de ontem, e parte da manhã de hoje, desconectada e só agora pude terminar a atualização dessa semana.

 

Mas eles viram o que é uma mulher à beira de um ataque de nervos!

 

Red...red...red...!

 

 

Red Daisy
Michael Banks

 

 

Mas, enfim...aí está:

 

Temos um texto meu “Eleanor Rigby”  (não estranhem. Fiz para a Oficina de Escritores e o desafio era escrever um conto baseado no título de numa música dos Beatles)

 

Paulo Leminski no objeto do desejo (sim, Zed... (www.sersentido.zip.net) ele também é um dos meus poetas preferidos!)

 

Uma poesia minha, “Espera”. (Obrigada pelo Comentário, Clarice! www.villac.pro.br)

 

Um belíssimo mini conto da minha amiga Vera do Val, “Margaridas”

 

E, por fim, outra  poesia minha, “Entre o sonhar e o não sonhar”

(e a gente sonha, certo?)

 

Espero que gostem!

 

Mil Beijos

 

Daisy

 



Escrito por Day às 11h52
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Eleanor Rigby

 

Calico Cat with Daisies
Susan Powers

 

Uma moça puxa um garotinho que, chorando dentro da camisa do Flamengo, recusa-se a ir. Somem. Ela ainda estica o pescoço, mas seu cotidiano fragmentado e corrido, vai e vem no vão entre o prédio imponente de mármore e o mirrado demais para tanto varal, onde se dependuram roupas coloridas que bailam ao vento. O mar, pintado de verde escuro se enruga todo com a brisa que pincela, branda, filamentos brilhantes que dançam na água.

A mulher suspira quando o casal de namorados desaparece por detrás do prédio cinza. Sai da janela, olha distraída a televisão ligada e sem som. Ajeita o bibelô na mesinha de centro, passa o dedo diligente pelo armarinho preso à parede verificando o pó acumulado. Sem pó, confere satisfeita. Não se olha no espelho de moldura dourada.

Conversa com João Sebastião que, recostado na almofada de veludo cor-de-vinho finge prestar atenção no locutor mudo:

                Está tudo pela hora da morte, João ¾ diz retornando à janela.

A moça gordinha corre, balançando ritmada o excesso de gordura. E a mulata de fio dental, desfila pela areia da praia. .João prevê o diálogo:

Pouca vergonha! ¾ acha com um muxoxo ¾ no meu tempo as coisas não eram assim. Quando eu era mocinha, as mulheres não se mostravam tanto e a água era tão limpa que os peixinhos mordiam a canela, fazendo cosquinha. Eu tinha as pernas grossas! Fazia um sucesso de maiô, precisava ver. ¾ sorriu nostálgica, deixando entrever uns dentes muito amarelos de nicotina. 

 

(continua...)



Escrito por Day às 11h38
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Eleanor Rigby (continuação)

 

João olha para aquela mulher de cabelos desgrenhados e grisalhos. O roupão com minúsculas florzinhas azuis e verdes, puído e descosturado, é grande demais para o corpo magro. Os pés, enfiados em uns chinelos bordados com fitilhos dourados, deixam escapar as unhas muito compridas e sem manicure, pintadas de um rosa escuro descascado. As mãos brancas e encarquilhadas tremem levemente e ele duvida que ela tivesse sido jovem e bonita um dia.

¾ Amanhã eu vou sair, João. Você vai ver só. Vou usar aquele vestido vermelho de estampa miudinha que eu usei no casamento da Aninha, lembra? Devo levar o chapéu? Aquele molengo com as margaridas coladas na aba? Devo. Com esse sol... não é bom arriscar. Vou passear na praia, chupar picolé de coco. Há quanto tempo, João, não chupo picolé de coco? Aproveito e passo no sapateiro.  Deixei lá, há anos a minha sandália de tirinhas vermelhas para consertar. Lembra, João? Aquela que arrebentou quando o taxi quase me atropelou. Quando foi mesmo? Nem sei. Vou na padaria e compro um doce. Um, não! Dois! Um só para você.

 Uma música toca ao longe:

AH, LOOK AT ALL THE LONELY PEOPLE! (...) LIVES IN A DREAM
WAITS AT THE WINDOW….”

 

João Sebastião, o gato preto e branco, se estica todo, salta no buffet de jacarandá com cuidado para não quebrar a bailarina de louça, olha para a mulher que anda para lá e para cá, planejando escapar da sua solidão e boceja, incrédulo: “De novo?”.

 

 Daisy Melo

 

 

 



Escrito por Day às 11h34
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o "Objeto do Desejo" dessa semana é a poesia marginal, repleta de sentidos de Paulo Leminski

Paulo Leminski

Paulo Leminski nasceu aos 24 de agosto de 1944 na cidade de Curitiba, Paraná. Em 1964, já em São Paulo, SP, publica poemas na revista "Invenção", porta voz da poesia concreta paulista. Casa-se, em 1968, com a poeta Alice Ruiz. Teve dois filhos: Miguel Ângelo, falecido aos 10 anos; Áurea Alice e Estrela. De 1970 a 1989, em Curitiba, trabalha como redator de publicidade. Compositor, tem suas canções gravadas por Caetano Veloso e pelo conjunto "A Cor do Som". Publica, em 1975, o romance experimental "Catatau". Traduziu, nesse período, obras de James Joyce, John Lenom, Samuel Becktett, Alfred Jarry, entre outros, colaborando, também, com o suplemento "Folhetim" do jornal "Folha de São Paulo" e com a revista "Veja". No dia 07 de junho de 1989 o poeta falece em sua cidade natal. Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Sua obra tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro "Metamorfose" foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, um de seus poemas ("Sintonia para pressa e presságio") foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro.

Bibliografia:

- Catatau (prosa experimental). Curitiba, Ed. do Autor, 1975.

- Quarenta clic's de Curitiba. Poesia e fotografia, com o fotógrafo Jack Pires. Curitiba, Etecetera, 1976.

- Polonaises. Curitiba, Ed. do Autor, 1980.

- Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase. Curitiba, Zap, 1980.

- Tripas. Curitiba, Ed. do Autor, 1980.

- Caprichos e relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983.

- Agora é que são elas (romance). São Paulo, Brasiliense, 1984.

- Hai Tropikais (com Alice Ruiz). Ouro Preto, Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985.

- Um milhão de coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985.

- Guerra dentro da Gente. São Paulo, Scipione, 1986.

- Caprichos e relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987.

- Distraídos venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987.

- A lua foi ao cinema. São Paulo, Pau Brasil, 1989.

- La vie en close. São Paulo, Brasiliense, 1991.

- Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego (prosa poética/ ensaio). Iluminuras, São Paulo, 1994. (Prêmio Jabuti de Poesia, 1995)

- Winterverno (com desenhos de João Virmond). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994.

- Szórakozott Gyozelmunk (Nossa Senhora Distraída) — Distraídos venceremos, tradução de Zoltán Egressy.

- Coletânea organizada por Pál Ferenc - Hungria, ed. Kráter, 1994.

- Descartes com lentes (conto). Col. Buquinista, Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1995.

- O ex-estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996.

- Melhores poemas de Paulo Leminski. (seleção Fréd Góes) Global, São Paulo, 1996.

- Aviso aos náufragos. Coletânea organizada e traduzida por Rodolfo Mata. Coyoacán - México,   Eldorado Ediciones, 1997.

- Agora é que são elas (romance). Fundação Cultural de Curitiba

http://www.releituras.com/pleminski_menu.asp



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 22h05
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Paulo Leminski

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

 

...

 

a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa
 
...
 
parem  
eu confesso
sou poeta 
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face 
parem
eu confesso
sou poeta 
só meu amor é meu deus 
eu sou o seu profeta 
um poema
que não se entende
é digno de nota
a dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota
...
       um bom poema
	leva anos
	   cinco jogando bola,
	mais cinco estudando sânscrito,
	   seis carregando pedra,
	nove namorando a vizinha,
	   sete levando porrada,
	quatro andando sozinho,
	   três mudando de cidade,
	dez trocando de assunto,
	   uma eternidade, eu e você,
	caminhando junto



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 21h59
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Espera

 

 

Cocktails and Broken Hearts
Jack Vettriano

 

Sorrio enquanto escuto no aparelho de Cd à beira da praia:

 

 Vida é fazer
Todo sonho brilhar...
 

 

Um sol de rachar... sento-me naquele bar de sempre.

Os garçons já me conhecem e, apesar disso, me chamam de madame.

-         uma taça de vinho seco.

Finjo ler um livro qualquer.

 

Espero...

Que venha...

 

Um conhecido, um amante, um olhar...

uma surpresa!?

talvez um boa tarde?

 Que seja!

(continua...)



Escrito por Day às 20h26
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 Espera (continuação...)

Mas o que vem (e ele sempre vem)

é o pôr - do –sol.

e um gosto de vinho ressecado, vadio e barato  que colore a língua, mancha a vida e o céu da boca.

Era seco, pois.


Luz do querer
Não vai desbotar
Lilás cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepom

 

A dor dura séculos.

A musica, o tempo todo do mundo.

 Nada vai desbotar
Brinquedo de papel-maché

 

Daisy Melo

Música incidental: João Bosco e Capinam

 

 

Uma poesia que não sei quando escrevi... mas que foi terminada hoje.

para vocês...

 

18/11/2005



Escrito por Day às 20h24
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Ah se eu tivesse escrito isso...

Margaridas

 

Red poppies and small daises
Annie Griffiths Belt

Ela tocou o coração. As duas mãos no peito, delicada. Ainda sangrava. De nada adiantaram os curativos, feitos às pressas, de nada a racionalização. Ainda doía muito. Com cuidado tentou trocar as bandagens. Arrumou-se toda e saiu pela noite. Não adiantou. O sangue continuava a pingar. Procurou o uísque no armário. Quem sabe anestesiasse. Funcionou. A dor ficou mais fininha, mas continuava ali. Extenuada, atirou-se na cama.

Na manhã seguinte acordou boiando nos lençóis empapados. O mundo era vermelho, a chaga não desistia.

Meio sem rumo, foi até a cozinha. Abriu a gaveta das facas. Todas reluzentes. Escolheu a mais afiada.

Com um golpe certeiro abriu o peito e arrancou o coração. Atirou-o pela janela. Suspirou aliviada.

Já mais tranquila, saiu para o trabalho. Ao fim do dia, quando voltou, repicando os saltos das sandálias pela alameda do jardim, viu o coração, abandonado, no centro do canteiro de margaridas. Ainda batia, ainda sangrava.

E as flores, todas elas, estavam tintas de vermelho.


Vera do Val



Categoria: ah, se eu tivesse escrito isto..
Escrito por Day às 19h02
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Entre o sonhar e o não sonhar

 
Singing Fish
Joan Miro

 

O peixe se lança no arco do tempo

Sacode no ar tranças douradas

inexistentes...

pula, brinca
um mergulho e as águas serenas se enraivecem


águas mornas,

águas frias
águas que me afogam.

águas luzidias


no céu uma lua cheia
mingua, cresce,
nova.


No peito um sonho...

 

certos sonhos
ficam vagos
fogos fátuos
não resistem

outros viram
sonhos raros
impossíveis contatos
fogos eternos

sobrevivem.

 

29/01/04



Escrito por Day às 18h46
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Às vezes eu sou muitas....

Daisies in Red
Sangita

 

Quase sempre uma só. Algumas vezes estou “in red”. Outras, em amarelo...

Só quero celebrar a vida, (apesar de tanto falar da morte).

Na verdade, descobri o sabor das coisas, depois que saboreei as outras tantas outras coisas... (nem tão doces).

Escrevi um dia em “Ao vencedor as batatas” do tema “A solidão das coisas” do  site dos Anjos de Prata” (www.anjosdeprata.com.br - aproveitem e façam uma visita. Vocês vão se surpreender com a qualidade “angélica” do nosso povo alado):

“Talvez eu saiba. Se escrevo para incensar demônios, são necessários demônios a serem incensados. Se a escrita me preenche um vazio, uma fissura, é preciso algo que rompa o furo. "no brain, no pain" disse Elvira, mãe da minha amiga Nancy. "Eu canto porque o instante existe e minha alma está completa. Não sou alegre nem sou triste, sou poeta" cantou Cecília.”

É isso aí...

O poeta precisa viver de emoções. Tanto das tristes quanto das alegres...

Dos cheios e dos incompletos.

Nesta atualização temos um conto meu,  “Frio”.

Depois retomo o maravilhoso “Cigarettes Blues - capítulo II" da minha amiga querida Maria Helena Bandeira;

Logo em seguida Murilo Mendes... poeta  modernista da 2a geração do nosso Modernismo, que aprendi a gostar durante a aula do meu professor maravilhoso, Lucio Valentim.

Logo depois – sessão nostalgia – hora de relembrar e celebrar os filhos (não existe amor maior). E como na atualização anterior fiz um chamego para o meu caçula, agora chamegarei o meu primogênito,João Ricardo: futuro publicitário de sucesso, garoto sagaz, criativo e lindo! “Sou criativo que nem a minha mãe” (ele costuma dizer)  e – tudo o que peço - feliz! Te amo, lindão...

Depois aquilo que invejo (no bom sentido) na poesia dos amigos queridos que conheci e aprendi a admirar com a convivência na internet: letras lindas e imagens poderosas: Marcelo D´Ávila, gaúcho e doutor, talentoso e amigo. Uma graça de pessoa.

E para terminar a atualização dessa semana, mais uma poesia minha (afinal sou a dona do blog, oras!)

Até a próxima atualização!

Mil Beijos!

Fiquem com Deus.

Ps:Tânia Melo (prima que não é prima, mas talvez seja - quem  sabe? Esses mascates que andaram por esse Brasil à fora... será que nosso tataravô saiu de Campo Maior no Piauí e chegou no Rio Grande do Sul? Ou vice-e- versa? Sabe-se lá?) Obrigada pelo carinho e pelos comentários.



Escrito por Day às 17h10
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FRIO

 

Certas lembranças surgem e são sensações muito presentes. Chegam a doer. Lembro da minha operação nas amígdalas. De dançar e ir feliz da vida para o hospital. Corria e pulava como se estivesse numa festa com palhaços, bolas e bandinha, só porque haviam prometido todos os sorvetes que eu conseguisse tomar. E cumpriram a promessa. Mas a dor era tanta ao engolir que não consegui comer nenhum. A massa cor-de-rosa com pedacinhos de morango arranhava minha garganta e ia rasgando faringe, laringe, traquéia e formando um bolo disforme no estômago. Naquele dia chovia fininho e frio.

Desde então as chuvas não se afastaram mais. Penso nos disquinhos de vinil de todas as cores que contavam histórias infantis. Lá fora chovia insistente. Eu me aquecia ouvindo musiquinhas e fantasiava um colorido solitário. Mas o frio...

Depois, cresci. As chuvas eram, então mais intensas e as gotas batiam geladas na minha alma de inverno carioca. Inverno pouco dirão alguns veementemente. Tá, concordarei a contra gosto. Mas não explico que a alma é imensa. Nem mostro onde ficam todos os frios do mundo. Todas as neves e granizos. Nem conto que na minha alma adolescente cabia todo o frio da Sibéria.

 

Bridge in The Rain
Vincent Van Gogh

 

 

 



Escrito por Day às 13h17
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FRIO (CONT)

Ainda chove e o vento bate no toldo da varanda com brutalidade de namorado bêbado. As venezianas mexem-se descontroladas e meus gatos ressonam nas almofadas. Afago um por um com melancolia e eles reclamam miando entediados e fogem da minha súbita demonstração de afeto.

 Abro o portão e olho a cachoeira de chuva e barro que despenca ladeira abaixo. O vento é tanto que faz voar o guarda-chuva. Olho surpresa e ele sobe como um balão, se revolve numa terçã louca, contorcendo-se até não sobrar mais nada.

Rodopio junto e caio no jardim, tonta e enjoada. Meu corpo afunda inerte na grama molhada. As gotas escorrem do meu rosto e o frio se descola do meu coração. Deve ser bom morrer assim. Morrer deve ser bom assim. E reconheço um misto de dor e fuga ao sentir a chuva fria penetrando nos ossos e enrugando a pele.

Volto para dentro molhada como um pinto. Expressão engraçada como se pinto fosse peixe. Não é pato que nada? Pinto. Pinto. Pinto! Tiro a roupa deixando-a amontoada no meio do caminho e, com olhar vitorioso, gozo a minha rebeldia. Meu desfazer de regras. Meu não listar obrigações. Não. Hoje só tricoto os fios do meu cobertor de lembranças.

No espelho olho meu corpo — já não tão bonito — e o reflexo mostra todos os amores que recusei, toda a satisfação que senti ao fazer um homem sofrer do meu Não. Um sim encolhido no meio do peito e jogado na cara mesmo, com som de Não. Um Não arrancado da alma grande e fria. Para quê? Para olhar meu corpo agora flácido no espelho quebrado? Meu corpo seco de Não?

No criado-mudo, o copo com o líquido espesso, cor de rosa. Bebo rápido e nem penso. O gosto adocicado e a forma como ele invade sôfrego a minha garganta, me faz lembrar o sorvete de morango.

Deito na cama. Os lençóis cheiram gostoso. Um cheiro de alecrim. Apalpo todo o meu corpo com a satisfação do reconhecimento e já com saudade. E enquanto aguardo, sinto um rodamoinho de sentidos antigos e cada vez que afundo, mais sinto frio. A chuva lá fora parece diminuir. O toldo não bate tão forte e tudo fica mais longe, as cores mais desbotadas... ou sou eu que me afasto?

É a ultima vez que sinto o frio intenso. O cheiro de alecrim some pouco a pouco...as gotas da chuva batem no corpo que não é mais meu...ou bateram... não me lembro mais. Foi há tanto tempo...

29/08/03

 

 

 

 

 

 



Escrito por Day às 12h40
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Os cigarettes blues 2

Na sequência, a prosa maravilhosa de Maria Helena Bandeira:

 

 

Blues
by Jesse Reisch

Under my skin

 

 

... “So deep in my heart...”

 

 

Estava lá de novo. O cabelo oleoso, a franja meio ondulada, um batom que ultrapassava os lábios murchos, grandes olheiras de rímel e vida.

O copo de uísque falsificado na mesa, cigarro entre os dedos e o sorriso gasto.

Vinha sempre pedir a mesma música, no final do espetáculo quando a maioria dos fregueses já tinha ido embora e era possível resgatar os blues na guitarra desafinada

Blues... cada um de nós.. blues

No vazio indeterminado da noite empoeirada de estrelas, saíamos para um café fumegante. Mimi, cachos dourados desalinhados, procurando um espelho antes do xixi. Marina emburrada por causa dos caminhoneiros. E Billie, o meu Billie olhos de fumaça e cafeína.

E a mesma música na madrugada, lamento fundo da guitarra e da voz anasalada de Marina I’ve got you under my skin”... yaaa I‘ve got you... under... uuuuunder... uuuunder  my skiiiiiiiiiiiiiin...

Depois ela saia, a dignidade intacta, e deixava umas notas amarfanhadas sobre a mesa.

Todas as vezes em que voltamos a São José do Imbassaí estava lá. Esperando e pedindo a música de sempre. Depois nem isto. Era olhar para ela, esperar a saída dos clientes das baladas medíocres, dos faroestes caboclos, para deixar sair a música enfartada, quase doente dos verdadeiros Cigarette blues. Under my skin.

Uma noite falhou.



Categoria: "cry me a river..."
Escrito por Day às 12h23
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Os cigarettes blues 2 (cont.)

A cadeira vazia me deixou amarga. Via o dente dourado de Billie na fúria da guitarra me chamando e não conseguia acompanhar.. um aperto no coração.. under my skin.

Duas noites depois reapareceu.

Antes mesmo da sessão coruja do rasga coração, fui procurá-la em sua mesa.

Sorria, os dentes estragados entre o batom que extravasava os lábios. Os olhos pintados estavam sérios, brilhantes.

- Você não veio... sentimos sua falta... palavras vazias, tentativa de estabelecer um contato impossível.. o que eu fazia ali, meu Deus? Apanhei um cigarro e pedi fogo, ela colou a guimba  sem dizer palavra.

Me preparei pra sair, merda de vida, quando respondeu:

- Ele voltou. 

- Voltou?.. repeti estupidamente - que bom.

- É foi bom mesmo... tantos anos depois. Como se não tivesse saído. Estamos juntos outra vez acredita?

“ Não” mas respondi com um sorriso falso

- Claro.

Os olhos dela brilhavam. Seriam lágrimas? Merda de vida.

Billie sorriu para nós e começou “ I’ve got you”...

Ela umedeceu a lingua ligeiramente, aspirou a fumaça e repetiu.. under my skin

Lá fora era clamorosamente dezembro.

 

Maria Helena Bandeira

 



Categoria: "cry me a river..."
Escrito por Day às 12h13
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O "Objeto do desejo" dessa semana é a poesia cheia de imagens de Murilo Mendes

Murilo Monteiro Mendes, nasceu dia 13 de maio de 1901, em Juiz Fora, Minas Gerais. Aos 9 anos diz ter tido uma revelação poética ao assistir a passagem do cometa Halley. Em 1917, uma nova revelação: fugiu do colégio em Niterói para assistir, no Rio de Janeiro, às apresentações do bailarino Nijinski. Muda-se definitivamente para o Rio em 1920. Os anos de 1924 a 1929 foram dedicados à formação cultural e à luta contra a instabilidade profissional. Foi arquivista no Ministério da Fazenda e funcionário do Banco Mercantil. Nesse período publica poemas em revistas modernistas como "Verde" e "Revista de Antropofagia". Seu primeiro livro, "Poemas", é publicado em 1930. É agraciado com o Prêmio Graça Aranha. Converte-se ao catolicismo em 1934. Torna-se inspetor de ensino em 1935. Em 1940, conhece Maria da Saudade Cortesão, com quem se casaria em 1947. Com tuberculose, é internado em sanatório na região de Petrópolis, em 1934. Em 1946, torna-se escrivão da 4ª Vara de Família do Distrito Federal. Cumpre missão cultural na Europa, proferindo diversas conferências. Muda-se para a Itália em 1957, onde se torna professor de Cultura Brasileira na Universidade de Roma. Foi também professor na Universidade de Pisa. Seus livros são publicados por toda a Europa. Em 1972, recebe o prêmio internacional de poesia Etna-Taormina. Vem ao Brasil pela última vez. Murilo Mendes morre em Lisboa, no dia 13 de agosto de 1975.

OBRAS:

"Poemas" (1930), "Bumba-meu-poeta" (1930), "História do Brasil" (1933), "Tempo e eternidade" - com Jorge de Lima (1935), "A poesia em pânico" (1937), "O Visionário" (1941), "As metamorfoses" (1944), "Mundo enigma" e "O discípulo de Emaús" (1945), "Poesia liberdade" (1947), "Janela do caos" - França (1949), "Contemplação de Ouro Preto" (1954), "Office humain" - França (1954), "Poesias (Obra completa até esta data)" (1959), "Tempo espanhol" - Portugal (1959), "Siciliana" - Itália (1959), "Poesie" - Itália (1961), "Finestra del caos" - Itália (1961), "Siete poemas inéditos" - Espanha (1961), "Poemas" - Espanha (1962), "Antologia Poética" - Portugal (1964), "Le Metamorfosi" - Itália (1964), "Italianíssima (7 Murilogrami) - Itália 1965), "Poemas inéditos de Murilo Mendes" - Espanha (1965), "A idade do serrote" (1968), "Convergência" (1970), "Poesia libertá" - Itália (1971), "Poliedro" (1972), "Retratos-relâmpagos, 1ª série" (1973),"Antologia Poética" (1976) e "Poesia Completa e Prosa" (1994).




Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 11h51
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Murilo Mendes

Bird
Georges Braque

Estrelas

 

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.

Há estrelas peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,

Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás,

Há estrelas que vêem, que ouvem,

Outras surdas e outras cegas.

 muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários.

Quase que só há estrelas.

 

(In: Murilo Mendes – poesia, Rio de Janeiro, Agir, 1983. p.54)



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 11h29
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Para o João Ricardo

 

CATA-VENTO

 

Te procuro no horizonte

vasculho as sombras, remexo os dias antigos.

Te encontro, te vejo ao longe.

 

Serenei...

meu coração sorri de brisa...

 

Dá uma vontade que o tempo volte...

 

Saiba ¾ a estrada é fabricada passo a passo,

ainda que sobre pedaços dos descaminhos,

restos de cristais pelo caminho

partes espalhadas

do chão que te levará adiante

 

Pedaço de mim — que cresce e se afasta,

tem pressa e não tem medo

leva o peito enfeitado de laços e flores,

se veste de cores,

e se prepara para a jornada

com asas de Mercúrio nos pés.

 

Saiba ¾ se surgir algum revés,

Sono, medo, fadiga...

 

Eu te beijo o machucado.

Te desato o embaraço.

Te acalento o rebuliço.

 

Daisy Melo

  

 

05/Junho/2003



Escrito por Day às 10h59
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Ah, se eu tivesse escrito isto...

Amphitrite
by Raoul Dufy

SURTO

queria mesmo
era
deitar os olhos
na brancura de
lápide
da página
e ver brotar
os versos como
um
surto
um
parto
um
porto
ter nas palavras
uma puta
que entrega o
corpo
por algo menos
que trinta
dinheiros
depois
à noite
apagar os olhos
morrer aos poucos
silencio
           sa
              mente

marcelo d'ávila

 



Categoria: ah, se eu tivesse escrito isto..
Escrito por Day às 10h51
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Beauty
by Lanie Loreth

Vôo

Algo se rompeu em mim...

 

Como um tique, um flash,

durou a eternidade,

perdeu-se num momento.

        

Misturou raiva com solidão,

fez calar-me o peito.

 

E se hoje faço mágica,

recolhendo, uma a uma,

as palavras que,

confinadas num livro,

estão à espera de serem transformadas em pássaros,

 

         é porque, ao se romper dentro do corpo,

 

         algo fez-se imagem.

         fez-me metáfora.     

                                

         Parte,

me faz vôo.    

 

 

Daisy Melo

23/04/2002



Escrito por Day às 10h27
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Daisy A La Carte
Pippa Sherwood

 

 

É muito bom atualizar esse blog!

 

Eu nem tinha idéia! É muito bom entrar e ver que tive 20, 30 pessoas por dia me visitando! Alguns gostam, outros desgostam... fazer o quê?

Agora... nada melhor do que receber um comentário...(quer deixar uma blogueira feliz? Deixa um comentário aí, vai...)

Infelizmente perdi os comentários da primeira semana. Coisa de blogueira inexperiente. Mas eu lembro de quem comentou. Obrigada a todos!

De qualquer forma, essa semana, decidi agradecer a alguns dos meus “comentaristas” mais constantes:

 

Raymundo Silveira www.silvei.blogger.com.br  sempre me elogiando, me empurrando para frente. Obrigada!

 

Renato, meu caçula, (meu filhote aquariano que nem eu) toda vez com um comentário gostoso, carinhoso, como só ele sabe fazer. (Aliás, nesta atualização, estou dando um presentinho para ele. Uma poesia que escrevi quando ele fez 18 anos em janeiro). 

 

João Ricardo, o mais velho, de poucas palavras, mas o grande responsável pelo Blog. Ele me ajudou a construí-lo.

 

Clarice Villac, com o seu lindo “ponto de luz” www.villac.pro.br, sempre com uma palavra edificante e ainda está preparando meu “banner" ou “selo” estou muito feliz. Obrigada!

 

Rubens da Cunha, www.casadeparagens.blogspot.com .O que falar do Rubens? Que ele é sensível? Que eu adoro o que ele escreve? Não... vou dizer que ele é poeta. E me inspira. E nos inspira. E basta.

 

Tatiana Alves, quando eu crescer quero ser que nem ela  (sou mais velha, mas não espalhem) e transmitir aos meus futuros alunos, todo o amor pela nossa  língua e literatura como ela faz. Além de ser uma  poeta e escritora talentosa (quando vai fazer o seu blog, fessora?)

 

Maria Helena Bandeira, www.ovoazulturquesa.blogspot.com poeta, escritora fantástica e o melhor: minha amiga (gastamos horas ao telefone).

 

Mariazinha Cremasco, www.parlamarieta.blogspot.com   com sua simpatia e alegria, iluminando nossos corações.

 

É isso. Esse blog é de todos vocês, meus amigos que me visitam.

PS: recado para o Danilo (que foi o primeiro comentário desta atualização): Quando você entrou e comentou, eu ainda estava atualizando. Acabei, infelizmente,  perdendo o seu comentário. Deixe outro, por favor, terei enorme prazer em visitar o seu blog.

 



Escrito por Day às 12h27
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Road to Relaxation

Barbara Aliaga

ROBERTO SOBRAL

Meu "Objeto do Desejo", aquele que gostaria de ter escrito é a poesia do meu amigo Roberto Sobral.

Roberto não está bem. Estamos rezando e pedindo muito pelo seu pronto restabelecimento. Comentei sobre Roberto em www.anjosdeprata.com.br, na crônica "Na solidão das coisas". Quem quiser, vá lá, dê uma olhada. E aproveite para curtir os textos  maravilhosos dos outros Anjos de Prata

P L A N O S

 

 

Pela manhã fiz planos para o futuro

Organizei-os

Debati-os

Julguei-os invencíveis

Ao meio-dia eu os refiz

A tarde tinha novos planos para o futuro

Julguei-os inteligentes

Quando a noite veio sorrateiramente – eu

Mais cuidadoso – revi meus planos para o futuro

 



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 12h25
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Andaman Sea

 

 

Despedida

Daisy Melo

 

As ondas batiam com força na Pedra do Arpoador. Gotas corriam pelas rochas e respingavam na mulher que parecia nada sentir. Sua silhueta escura contrastava com a espuma esbranquiçada e o olhar preso ao longe esperava que surgisse a ponta do mastro. Um mastro qualquer. Qualquer um servia, pois nada mais importava.

“Seus olhos eram verdes, marinheiro”, lembrou “como essa imensidão que vai daqui até os meus se desbotarem. E o labor incessante do mar não te deixa aportar. O meu corpo é a porteira e o seu tem outros portos. Em qual deles ancorou?”

Tocou calma e gentilmente o pingente de cristal azul que o seu marinheiro havia lhe dado há muito tempo. Na ocasião, ele jurara que havia comprado pessoalmente na Tunísia. Ela fingiu que acreditou, como fingiu que acreditou nas promessas e no compromisso que selaram com o presente. Como finge até hoje que o aguarda, vindo todos os dias na ponta da rocha e olhando o horizonte à espera do mastro.

Encaminhou-se para o calçadão da praia e observou as pessoas correndo, caminhando, vivendo suas vidas. Tirou o sapato e afundou os pés na areia fofa e úmida. Ali, o mar costumava em dias de ressaca, invadir as duas pistas da Avenida Atlântica e chegar quase até os prédios elegantes. E tudo virava mar e ficava verde como os olhos dele.

Foi até a beira da praia aonde as ondas quebram e pisou com receio na água fria. A espuma envolveu sua perna e invadiu seu corpo. Um cheiro bom de maresia tomou  sua alma.

Foi caminhando cada vez mais para dentro do mar. A água fria despertou seus sentidos, arrepiou sua pele e ela afundou docemente. Lá embaixo no meio do silêncio e da imensidão verde, arrebentou o cordão de ouro que sustentava o pingente de cristal azul e o deixou ondular junto com algas e peixes como numa ciranda.

E o mar foi ficando azul como o pingente e o desbotado dos seus olhos. E, pouco a pouco ela foi emergindo qual uma sereia, primeiro o rosto, o corpo e por fim as pernas. E sem olhar para trás, despediu-se para sempre do horizonte.

 

01/09/03

 

 

 



Escrito por Day às 12h19
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Para meu filho Renato quando ele fez 18 anos

 

Penguin & Chick
 

Renato,

 

Voce nasceu facinho, facinho.

Chegou e disse: to pronto!

E a gente teve que correr, não tinha maternidade, achamos uma lá na rua da estrela e tinha cometa e nuvens fosforescentes e purpurinas brilhavam no céu porque afinal você estava nascendo.

 

e você sem mais conversa, simplesmente nasceu, eu nem senti dor, tamanha a sua vontade

e você quase não chorou sabedor da sua sina de viver.

 

Nasceu empelicado que nem seu bisavô Nivardo. E como todos os outros que já estão de saco cheio da vida boa do ventre.

 

Prenúncio de boa sorte, de homem lutador e sério.

 

Mas, talvez por culpa minha ou herança (e herdou, desculpa, um preço alto),

 

É sensível, se desarma se a pressão for muita,

 

Pensa nos outros,

 

Não seria um déspota,um ditador.

Não tiraria proveito dos mais fracos.

Não ganharia se soubesse que seria à custa da perda de outros.

 

É generoso, amigo e preocupado até demais.

Escrito por Day às 22h11
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Sinto muito, filho...

 

Pois apesar de todas as dificuldades ainda acho essa uma boa opção de vida.  

E você vai vivê-la sem grandes dificuldades porque existem pessoas maravilhosas ao seu redor (como o seu pai e a família dele), que lhe darão o apoio que você precisa.

 

Você é  meu filho chameguento, carinhoso, minha purpurina, minha luz, minha saudade. 

E vai brilhar por puro merecimento.

 

Eu sei disso.

 

Nunca vou esquecer uma frase que você me disse  no elevador da rua São Clemente (e você tinha 5 anos): 

“ora mãe, cada um tem seu jeitinho” 

 

(E eu na época tão desconfortável com o meu que não era igual ao de ninguém) 

e você já sábio, maduro e ponderado me ensinou.

 

E ainda hoje me ensina com a sua retidão, sua modéstia, seu pouco falar, 

Que só tem quem guarda uma sabedoria interna que você ainda não teve tempo de descobrir.

 

Só tem quem guarda o seu tempo. Que também não é igual ao tempo de ninguém.

 

(a ansiedade era só de nascer)

 

Você ainda vai ter muito o que me/nos oferecer.

 

Te amo.

 

E prometo que estarei presente no seu futuro fabuloso...



Escrito por Day às 22h09
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meu outro "objeto do desejo" (aquele  que só em sonho) dessa semana é Renato Russo.

(nao sei como acontecem meus objetos de desejo.. é uma ânsia que pula e me toma inteira. Algo me comparece.)

Biografia

 

Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960, filho do economista Renato Manfredini, funcionário do Banco do Brasil e de Dona Maria do Carmo, professora de inglês. Ele aprendeu inglês desde pequeno, quando morou, dos 7 aos 10 anos, em Nova York. Nova transferência do pai levou o menino, já com 13 anos, a Brasília que tanto marcou sua música. Renato teve uma infância e adolescência de classe média alta, típica do pessoal das bandas de Brasília. Entre os 15 e os 17 anos enfrentou várias operações e viveu entre a cama e a cadeira de rodas, combatendo uma doença óssea rara chamada epifisiólise.

Em 78, inspirado pelo Sex Pistols, Renato formou o Aborto Elétrico, que no vai e vem de integrantes, contou com participações de Fê e Flavio Lemos (depois do Capital Inicial), Ico Ouro Preto e André Pretorius. Em 82 abandonou o Aborto Elétrico e passou a fazer trabalhos solos. Neste período ficou conhecido como "O Trovador Solitário". Quando a lendária "cena de Brasília" já era uma força underground reconhecida, Renato Russo formou a Legião Urbana com Marcelo Bonfá, Eduardo Paraná e Paulo Paulista. Um ano depois, Paraná e Paulista deixavam a banda e entrava Dado Villa-Lobos.

http://www.casadobruxo.com.br/renato.htm



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 16h50
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Renato Russo

Mais uma vez

 

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei

Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar

Confie em si mesmo

Quem acredita sempre alcança

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei

Nunca deixe que lhe digam
Que não vale a pena Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém

Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar

Confie em si mesmo

Quem acredita sempre alcança



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 16h28
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Soul Bird 2
Rabi Khan

 

Papo de pássaro.

Daisy Melo

 

O dia fica mais frio

debaixo do meu cobertor,

quando penso no que diria a você

se tivesse coragem.

 

Se não houvesse o medo de parecer piegas

ou vergonha de ser tão vulnerável.

 

Então, desmembro as frases enviesadas

em toques sutis, escassos,

entremeados de um pranto contido

rarefeito por soluços esparsos.

 

no fundo sou mais que isso.

 

Mas insisto em ser pássaro rouco e sem pouso

Que canta uma vida solitária, pouca 

E desfeito, cai morto

quando a seta do seu olhar esquivo lhe traspassa o peito.

 

Ou quando lembra a melodia do seu gozo.

 

19/07/04



Escrito por Day às 16h15
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