Feliz Natal

Temos nessa semana :
- No “Pérolas da Nossa Zona Oeste”: meu amigo Dalberto Gomes, poeta, performático, animador cultural, artista, romântico, sedutor... com sua poesia malemolente...

- Apresento nova coluna: “Escritores da Estácio-Letras/Barra World”, que é inaugurada pelo meu amigo, companheiro de letras e angústias escolares (minhas, não dele), Daniel Moutinho.

- meu conto, “Sem palavras” participante da Sexta Antologia dos Anjos de Prata (www.anjosdeprata.com.br),. O orgulho de estar lá, de novo, e desta vez, no livrinho vermelho, não tem palavras (alôôuu, Beto Muniz, Feliz Natal!!)
- Cecília Meireles no “Objeto do Desejo”. Tenho muitas coisas a dizer ...início de percurso amparado pela poesia “Canção” (postada nesta atualização), mas deixo para contar em outra oportunidade.
- Na coluna “Ah, se eu tivesse escrito isto” uma “rapidinha” maravilhosa do Flávio Moutinho, o Dr. Ph , (como eu o chamava lá na OE (Oficina dos Escritores, http://rapidinha.oe.zip.net); e, não por acaso é o irmão do Daniel Moutinho, também nesta atualização.

- E para terminar: uma poesia minha: “se eu fosse pop star”
Desejo um Natal Maravilhoso a todos vocês!!!
mil beijos,
Day
Escrito por Day às 23h53
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um vôo sobre o mar e as letras
Pérolas da nossa Zona Oeste
Dalberto Gomes
Acordas
Amanheces ao meu lado
Abre-se o pano
Me mantenho acordado
Bolo um plano.
Transfiguro o passado
Como insano.
Você é o meu lume assinalado
Não me engano
Sinto por ti estou apaixonado
Te chamo,
Acordas. Minha deusa!!! É hora de prosseguir teu reinado
Exclamo.
Beijas minha boca, o fim do mundo foi anunciado.
Ufano.
Cola teu corpo ao meu para ser apalpado, acariciado, profanado, sublimado.
Todo ano.
Fecho os olhos... fico a vagar, inebriado.
Conclamo.
O dia nos pertence. O tempo está parado.
Ah! Desce... desce meu Deus
Desce meu pai
Desce meu mano
O pano
(te amo)
Escrito por Day às 22h26
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Escritores da Estácio-Letras/Barra World

MAROLA
Daniel Moutinho
Nenhum som a não ser das minhas próprias vozes. Não digo uma palavra, recuso-me. O pensamento muito além dos horizontes da lagoa em calmaria: temperamentos diversos. Só quando o bem-te-vi se põe a cantar o silêncio se desfaz. É quando percebo o canto das cigarras, da água batendo na areia – marolas – e, dependendo da direção em que viro o rosto, o vento batendo nele.
Seria eu como essas marolas, insignificantes na tarefa de regar a areia da praia e deformá-la? Seria eu apenas uma delas, apenas mais um na lagoa infinita, vindo do além dos horizontes onde está meu pensamento?
A direção é o leste, pôr-do-sol. Reflexos nas nuvens, não olho diretamente o sol como não olho diretamente para o meu pensamento como também não para aquela que não o deixa em calmaria há semanas.
Ouço passos atrás de mim, não são os do meu pensamento porque ele está além dos horizontes da lagoa. Um casal, na praia, me faz lembrar das areias de Ipanema no fim daquela que foi a primeira noite.
Fogos de artifício dão um fim mágico ao meu momento. Superficialidade: temperamentos diversos lá na beira da lagoa.
Escrito por Day às 21h40
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Sem Palavras
Daisy Melo
Não sei como dizer o que me solta a língua, o puro verbo. A coisa explicada e resolvida. Então, minto. Sou espelho truncado e adverso, metáfora indistinta, só para o meu uso. Visto-me de adivinhação, cartas de tarô e folhas de chá. Nem sou assim sempre. Reinvento-me colorindo de azul as mechas dos meus cabelos revoltos que cismam em se desmanchar.
Perco-me nos sentidos impensados, turbilhão insentido. (E eu queria tanto que você me ouvisse...), mas não digo: grito!
Às vezes me possuo, sou minha, me basto. Às vezes me possuis, sou tua, me basto. Mas sempre tenho medo. De não te bastar. De não ser mais essa ou aquela. Nem tampouco aquela outra. A que não é. Tenho medo de não me dizer. Divido-me em multicores, pregando miçangas nos meus contornos, refazendo meus bordados desbotados com tiquinhos de seda e algodão. Tenho medo de me esquecer nos tais remendos e então me construo, me finjo patchwork e costuro o tempo, cerzindo-me como um frankestein melancólico. Minha solidão é minha e eu a reinvento, a refaço, penélope à espera, em todos os amanheceres.
Se o vento sopra e me enverga, recomponho-me em cata-ventos; e por você, meu moinho, minha tormenta, meu enche-ventre, meu estufa-bucho, desfaço-me em gotas. Perfume volátil, inflamável como deve ser.
E se sofro de coisas de entristecer, choro o pranto da vida toda e tanto que me esvaio que me dá dó. E aí, sou dor. Pura e simplesmente. E choro tudo de novo com pena de mim. Mas depois me recomponho, assôo o nariz, um lexotan rosa perdido no criado mudo mapeia meus percursos, até que gargalho todo o riso da vida que me escorre, me encharca do mar ansiado, que é só seu, pois eu não sou. Não mais, marinheiro.
Tenho medo de não saber o que fazer. Então não digo o que não tenho para dizer. E lixo a unha e aparo o verbo, finjo que não existem arestas, planeio as serras, varro as terras, replanto as mudas. As que vivem e as que morrem ressequidas.
E me desarrumo. Viro-me do avesso. Revido da vida, me vingo. Levanto-me feito mastro e tal qual estandarte me aprumo. Vagueio... no fundo, só verbo. Levemente errante, levemente açoite.
Escrito por Day às 21h30
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Objeto do Desejo
Cecília Meireles

"...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda..."
(Romanceiro da Inconfidência)
Filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil S.A., e de D. Matilde Benevides Meireles, professora municipal, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro. Foi a única sobrevivente dos quatros filhos do casal. O pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe quando ainda não tinha três anos. Criou-a, a partir de então, sua avó D. Jacinta Garcia Benevides. Escreveria mais tarde:
"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano." (...)
Mais detalhes em www. releituras.com.br
Escrito por Day às 21h25
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Cecília Meireles

Antigua by Pearson
Canção
Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito; praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas.
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem forças,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
eu não dei por esta mudança ,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e minha alma está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento.
Escrito por Day às 20h35
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Ah...se eu tivesse escrito isto...
Flavio Moutinho

Hot Summer`s Day by Gerry Baptist
Desidratação
Oito horas da manhã, o termômetro já marcava 42º à sombra. A previsão do tempo anunciara o dia mais quente dos últimos 50 anos. Pedro poderia estar na praia a uma hora dessas, ou ainda dormindo no seu quarto refrigerado.
Que nada, vestia seu terno preto com gravata listrada de amarelo e branco.
"Não é nem higiênico trabalhar num dia desses!"
Às 10h, notou que a manga lhe escapava pelas mãos. Voltou do almoço e o cinto mal segurava a calça.
Ao final do expediente, pulou da cadeira e tropeçou na barra da camisa. Cruzou com colegas que estranharam que peças de roupa andassem sozinhas sem cabeça, braços ou pernas.
Até que pararam e ali ficaram, encharcadas de suor.
Escrito por Day às 19h51
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Chute d`Icare by Henri Matisse
Se eu fosse popstar
Daisy Melo
Se eu fosse popstar exigiria mil toalhas brancas, para enxugar meu suor de estrela.
E ele teria mil gotas coloridas piscando loucas como aquelas luzes de boate.
Depois... bocejaria como um gato preguiçoso descansando seu nada fazer naquela almofada que afunda. À noite... escorregaria pela barriga grávida da lua crescente, me esconderia do lado oposto da lua nova, brincaria de astronauta.
Na minguante... dormiria.
Acordaria quando o sol secasse o orvalho das folhas com o meu secador de cabelos.
Ah...
Mas se eu fosse popstar cavalgaria num cavalo branco de Hollywood, enquanto namorava as rugas do Redford.
Usaria as roupas ao contrário,
Mostrando a etiqueta rota e dizendo petulante: Há! strass, vidrilhos, rendas e pés descalços no casamento.
Nos cabelos, mil fitas coloridas nas orelhas, os brincos desencontrados.
E rodopiaria tresloucada de vento!
Abril/2003
Escrito por Day às 23h18
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Blue Daisy Marie-Claire
Tentei fazer as coisas certinhas, organizadas. Mas não deu.
Uma atualização por semana. Um amigo a cada atualização.
Mas não deu.
Já coloquei escritores da Zona Oeste, amigos escritores da Internet, estou pensando em apresentar os amigos escritores da Estácio-Barra World... lindos, muitos, vocês nem têm idéia.
Enfim...
É impossível estar em contato com tanta gente talentosa... Estar frente a frente com a palavra do outro que de repente nos remexe por dentro e vira a nossa palavra e aí, ficar muda e esperar a próxima atualização.
Não dá!!
Então, passeando pelo www.e-cos.blogspot.com do meu amigo Marcelo Serrano Lopes, resolvi criar essa coluna, (outra!). (ai...ai... esse blog vai virar uma enciclopédia!):
@#$% surto***
O surto acontecerá de vez em quando...
(Surtos semanais? São demais! Será que eu agüento?)
Surtem, galera!

Marcelo Serrano Lopes
ps: aviso aos navegantes: vou colocar fotinha de todo mundo daqui pra frente, hein?
Escrito por Day às 23h28
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MARCELO SERRANO LOPES

NENHUM ANJO VEIO
Na urgência intocada Da noite passada Vencidas as validades Do passo-passagem Do corpo-clarão Nenhum anjo veio Coberto de visgo Trocar a paisagem do não
DECLAMATÓRIA
Na lúcida declamatória louca De tanto dizeres tantos Tão claros foragidos cantos Em uníloqua sinfonia
Fluxo de palavras subvertidas Na deliciosa e poética orgia Da dinâmica vocal da boca Brota de tua laringe
Voz-bala descarrilhada, alerta vermelho em meus ouvidos lentos:
Cuidado! O poeta finge
ESTIGMA DO CARIOCA
Alienado na Rua do Lavradio Vadio na Rua da Relação Na do Senado É deputado
LIBER
Tudo é o bem pouco Que se pode escolher
Isto ou aquilo? Ser ou não ser?
Perguntam-se as máquinas de escrever
Escrito por Day às 23h12
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DEMORÔ!!!
Mas está bonita!!
Nesta atualização eu caprichei!
Foi lançado o blog das rapidinhas da OE.
A Oficina de Escritores é uma lista de criação literária. Um dos exercícios propostos é a criação de textos com até 120 palavras de um dia para o outro.
Você vai ler rapidinhas minhas, do Rubens da Cunha, da Maria Helena Bandeira, da Vera (Inquieta) do Val, do Marcelo D’Avila.... de pessoas que já transitaram pelos “Olhos” e outras que transitarão com certeza!
Vale a pena conferir. Presente de Natal.
O blog é http://rapidinha.oe.zip.net/
passa lá!
Escrito por Day às 10h36
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A gente está sempre bandeirando por aí, não é mesmo?
Dessa vez bandeirei seriamente.
No Objeto do Desejo temos quem? Ele: Manuel Bandeira. E, etc e etc ...(falar o quê, hein?)
Não satisfeita, apresento novamente no “Cry me a River” o terceiro episódio do lindo Cigarettes Blues, "Sophisticated Lady", de quem??
Da minha amiga Maria Helena Bandeira (só a sobrinha-neta do vovô Bandeira ali de cima.) http://www.ovoazulturquesa.blogspot.com/
Ainda não satisfeita, resolvi incluir um poema de Bárbara Bandeira (filha da Maria Helena – o que prova que esse dom maravilhoso vem do sangue, de gerações em gerações)
http://pretoinverso.blogspot.com/
Boa sorte para Bárbara (bonitinha defensora ferrenha dos animais, dos cachorrinhos vira-latas, dos gatinhos de rua - estou com ela, com certeza!)
No “Nossas Pérolas da Zona Oeste” temos meu amigo Paulo D’Athayde, com sua poesia cheia de imagens. Para ele, a imagem se funde na palavra e vira poesia. Símbolo puro.
E temos novamente Rubens da Cunha.
Como assim? Seria um amigo escritor por atualização! E ele está aqui de novo?
Rubens esteve na inauguração do “Olhos do Sol” , com uma crônica linda.
Mas Rubens não é só crônica. Ele também é poesia. Palavra. Sentimentos e vísceras.
Daí, passeando pelo http://www.casadeparagens.blogspot.com/, dei de cara com uma poesia daquelas que nos esganam. Não agüentei. Sou fanzoca dele.
E, os meus escritos:
poesia: Sem perguntas
Conto: a mulher do 405.
Espero que gostem!!
Mandem comentários via blog ou via e-mail mesmo:
daisy_melo@yahoo.com.br
Mil beijos
Day
Escrito por Day às 10h30
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Bárbara Bandeira
http://www.pretoinverso.blogspot.com/
Corpos Em um Dois Ao avesso
Escrito por Day às 19h44
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um vôo sobre o mar e as letras
Pérolas da nossa Zona Oeste
Paulo D´Athayde

Adam and Eve by Tamara De Lempicka
Loucos Sentidos
Movimento as mãos na pele do rosto
Ultrapassando os limites dos sentidos
Provando alucinações do gosto,
Tenho a doçura do som nos ouvidos
E busco a cada segundo, no tato,
A grandeza e a beleza que guardas
Nas gavetas do corpo em contato
Com as paralelas linhas pardas
Onde sinto variadas sensações que fluem
Na clarividência da luz e lúmem
O éter de aromatizadas palavras.
São loucas inspirações deliciosas,
Lúdicos delírios e preciosas Mensagens transcendendo a ótica das palavras.
Categoria: Pérolas da nossa Zona Oeste
Escrito por Day às 19h22
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Cry me a river
Os Cigarettes Blues
Olha ela aí de novo,
Maria Helena Bandeira
Sophisticated Lady
“And when nobody is nigh, you cry,
You cry, you cry.” ( Sophisticated Lady )
Quando Billie ficava absurdamente triste se agarrava aos baseados.
Nós todos fumamos, em épocas diferentes, junto com os dry martinis de Marina, ou as cervejas de Mimi. Eu me embebedava de vinho barato e me via, a música soluçando de beleza.
Billie preferia o uísque paraguaio. E quando estava absurdamente triste se apegava aos baseados e tocava Sophisticated Lady para Marina.
Ela não entendia a homenagem. Nunca considerou a hipótese de dar a ele um pequeno pedaço de seu corpo alvo. Marina estava nos Cigarette Blues até surgir o empresário que iria tira-la do anonimato das nossas estradas rotas.
Com seus cabelos dourados e olhos azuis, fazia uivar os rudes caminhoneiros, mas nunca percebeu sua presença. Era como uma estrela, distante, abstrata, intocada por toda aquela sordidez.
Billie percebia isto e às vezes ficava absurdamente triste e fumava mais baseados do que o normal.
Uma noite, em São Tomé da Serra, depois de um espetáculo lancinante de guitarra - Sophisticated Lady para Marina - antes dos banheiros e do café, encontrei Billie no camarim, rosto vermelho, olhar brilhante, vago. Tive certeza
- Você anda cheirando?
Ele me olhou irritado, não respondeu.
- Vi o Mejicano com você, no intervalo...
- Deixa de ser babaca, falou? Cuida da droga da sua vida!...
Eu fiquei calada. Porra, não era da minha conta, era? Que se danassem, ele, Marina, Mimi e toda a população desta merda de Terra redonda.
Nunca mais toquei no assunto.
Éramos cometas em cada uma daquelas cidades escondidas, retornando um pouco mais velhos, mais gastos, mais amargos, derramando nosso sangue blues pelos tristes bares das periferias decadentes. Como as cortinas gastas e os falsos cristais do lustre – um cenário ultrapassado.
A polícia pegou Billie numa batida idiota – Colette, o travesti velho, deu uma navalhada em Luigi, seu amante jovem. O sangue e a gritaria histérica atraíram a atenção dos Homens. Eles deram uma vistoria nos camarins e acharam o pó. Fui visitar Billie na cadeia.
Categoria: "cry me a river..."
Escrito por Day às 18h29
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Cry me a river...
Abatido, os cabelos despenteados, cheiro de urina e um sabor de coração sujo.
Tivemos que improvisar um show sem guitarra, num barzinho em frente á funerária. Só com o piano de Marina que se acompanhava todas as noites cantando Sophisticated Lady. Sabe-se lá porque. Marina era estranha. Mas tinha uma voz linda, um timbre aveludado ,às vezes rouco, uma alma de blueseira.
Os participantes dos velórios gostavam dos blues lancinantes, da beleza de Marina ou da bunda de Mimi. O fato é que tínhamos casa cheia todas as noites.
Enquanto Billie aguardava julgamento, cantamos para acompanhantes de defuntos, nós, mais mortos do que eles, em nossos caixões de luzes azuis.
Um dia não agüentei, fui ao delegado e abri meu coração. Falei da estrada empoeirada, dos sanduíches frios, dos clientes sem paciência e sem educação, dos ouvidos duros, dos assentos nos ônibus arrebentados, das noites mal-dormidas, de toda a humilhação... um blues interminável e dolorido.
O Homem entendeu, talvez, não sei. Soltou Billie na sexta-feira, de surpresa.
Ele apareceu no meio da noite. Marina cantava Sophisticated Lady.
Ficou ali, parado, ouvindo - nós no backing vocal, meu coração na boca, morrendo. E a música quase doentia de Marina, linda, longínqua.
Billie apanhou a guitarra e acompanhou. O blues subia pelos seios dela ,tocava os cabelos, dava para sentir o cheiro da paixão. Um gemido de cão abandonado, dolorido, sinuoso. A voz dela acompanhava rouca, estranha, apartada, indecifrável.
Eu olhava para Billie ali, envelhecido, ouvia o lamento da guitarra, a voz dela ecoando e então eu soube que era amor o que sentia.
Esfrangalhado, encardido, esgarçado, roto, amarfanhado, mas amor.
Me suicidei nesta noite com dez tequilas, três dry martinis e cerveja.
Fui enterrada em mim sem choro ou velas.
Categoria: "cry me a river..."
Escrito por Day às 18h19
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A mulher do 405
Daisy Melo
Meu tormento é ficar aqui e esperar. Todo o dia até o final do dia. Escurece e as horas passam lentas, posso fazer qualquer coisa, mas espero. É o meu vício. Espero que ela chegue fazendo pléc, pléc no piso da calçada. Adivinho, muito antes do que escuto, o salto ferindo a ardósia, perfurando meu peito como uma adaga. Pulo da cama chegando à janela antes mesmo do coração e, escondido atrás da escuridão, observo quando ela procura na bolsa durante alguns minutos algo que demora a encontrar, que escorrega lá de dentro e cai no chão. Ela solta um “Merda” que ressoa em ecos na rua deserta. Cambaleia um pouco, se encosta no portal de mármore do edifício, retira da fronte uma mecha do cabelo que cai desgrenhado e vai se abaixando lentamente até pegar o molho de chaves, caído ao lado do bueiro. Procura a chave certa e a coloca com alguma dificuldade na fechadura. Entra batendo com estrondo, o portão. Minhas têmporas latejam descompassadas marcando afoitas os infinitos segundos e bem na hora que vai explodir, fazendo o sangue saltar pela boca, a luz do 405 se acende. Finalmente. Ela entra, encosta-se à porta como se a contivesse e uma expressão de dor e cansaço marca seu rosto. Joga, então, a bolsa e os sapatos no chão da sala me fazendo imaginar aqueles pés brancos passeando ligeiros no meu peito. Desliga a luz. Entra no quarto. Acende a luz. Sua janela livre das cortinas se abre em technicolor. Suo agora e gotas enormes escorregam pelas minhas costas, atravessam os pêlos da minha coxa e se alojam no carpete grená. E então, sem conter a minha emoção, repleto de ansiedade e volúpia a vejo tirar a roupa, largar o tecido amontoado no chão. Os seios pulam libertos, os mamilos cor-de-rosa brilham, escorregam nas curvas seguras. Engasgo com a saliva espessa que resseca a minha boca e cola minha língua. Arranca a calcinha, se joga na cama, bêbada e nem apaga a luz. Aberta, exposta, minha, só minha pois agora eu posso tudo. E, transgrido, a violo, mordo seus lábios, unho suas costas. Meu sangue se mistura com o dela e corre descompassado, se aloja no meu membro. Gozo. Uma dor fina, que macera, que me rompe. Vira-me do avesso, me mostra o que sou. E eu quero gritar e não posso. Mudo desfaleço, morro. Exausto me jogo na cama nu, aberto, exposto, bêbado... Esperarei. É o meu vício. Todo dia. Sempre no final do dia.
02/04/04
Escrito por Day às 17h51
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Objeto do Desejo

Manuel Bandeira
Texto retirado de www.releituras.com.br
Seguinte: um dos melhores sites de Literatura Brasileira que eu conheço.
E não é porque eu tenho um texto lá, não, em “novos autores” (hohoho)
Mas porque o profissionalismo é nota 10!!
Passem lá!!
"...o sol tão claro lá fora, o sol tão claro, Esmeralda, e em minhalma — anoitecendo."
Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886, na Rua da Ventura, atual Joaquim Nabuco, filho de Manuel Carneiro de Souza Bandeira e Francelina Ribeiro de Souza Bandeira. Em 1890 a família se transfere para o Rio de Janeiro e a seguir para Santos - SP e, novamente, para o Rio de Janeiro. Passa dois verões em Petrópolis.
Em 1903 Bandeira se matricula na Escola Politécnica, pretendendo tornar-se arquiteto. Estuda também, à noite, desenho e pintura com o arquiteto Domenico Rossi no Liceu de Artes e Ofícios. Começa ainda a trabalhar nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, da qual seu pai era funcionário.
No final do ano de 1904, o autor fica sabendo que está tuberculoso, abandona suas atividades e volta para o Rio de Janeiro. Em busca de melhores climas para sua saúde, passa temporadas em diversas cidades: Campanha, Teresópolis, Maranguape, Uruquê, Quixeramobim.
"... - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."
Em 1916 falece sua mãe, Francelina. No ano seguinte publica seu primeiro livro: A cinza das horas, numa edição de 200 exemplares custeada pelo autor. João Ribeiro escreve um artigo elogioso sobre o livro.
O autor perde a irmã, Maria Cândida de Souza Bandeira, que desde o início da doença do irmão, havia sido uma dedicada enfermeira, em 1918. No ano seguinte publica seu segundo livro, Carnaval, em edição custeada pelo autor. João Ribeiro elogia também este livro que desperta entusiasmo entre os paulistas iniciadores do modernismo.
O pai de Bandeira, Manuel Carneiro, falece em 1920. O poeta se muda da Rua do Triunfo, em Paula Matos, para a Rua Curvelo, 53 (hoje Dias de Barros), tornando-se vizinho de Ribeiro Couto. Numa reunião na casa de Ronald de Carvalho, em Copacabana, no ano de 1921, conhece Mário de Andrade. Estavam presentes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Osvaldo Orico.
Inicia então, em 1922, a se corresponder com Mário de Andrade. Bandeira não participa da Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro em são Paulo, no Teatro Municipal. Na ocasião, porém, Ronald de Carvalho lê o poema "Os Sapos", de "Carnaval". Meses depois Bandeira vai a São Paulo e conhece Paulo Prado, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Menotti del Picchia, Luís Aranha, Rubens Borba de Morais, Yan de Almeida Prado. No Rio de Janeiro, passa a conviver com Jaime Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Prudente de Morais, neto, Dante Milano. Colabora em Klaxon. Ainda nesse ano morre seu irmão, Antônio Ribeiro de Souza Bandeira.
Etc..etc..etc..
Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 17h37
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Manuel Bandeira

Vulgívaga
Não posso crer que se conceba Do amor senão o gozo físico! O meu amante morreu bêbado, E meu marido morreu tísico!
Não sei entre que astutos dedos Deixei a rosa da inocência. Antes da minha pubescência Sabia todos os segredos.
Fui de um... Fui de outro... Este era médico... Um, poeta... Outro, nem sei mais! Tive em meu leito enciclopédico Todas as artes liberais.
Aos velhos dou o meu engulho. Aos férvidos, o que os esfrie. A artistas, a coquetterie. Que inspira... E aos tímidos - o orgulho.
Estes, caçôo e depeno-os: A canga fez-se para o boi... Meu claro ventre nunca foi De sonhadores e de ingênuos! E todavia se o primeiro Que encontro, fere a lira, Amanso. Tudo se me tira. Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...
Se bate, então como o estremeço! Oh, a volúpia da pancada! Dar-me entre lágrimas quebrada Do seu colérico arremesso...
E o cio atroz se me não leva A valhacoutos de canalhas, É porque temo pela treva O fio fino das navalhas...
Não posso crer que se conceba Do amor senão o gozo físico! O meu amante morreu bêbado, E meu marido morreu tísico!
A arte de Amar
Se queres sentir a felicidade de amar,
Esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,
porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 17h16
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Ah...se eu tivesse escrito isto...
Rubens da Cunha

Edgar Degas
Sou mulher de apelos frágeis, pêlos fáceis, fêmea e banho.
Sou mulher de ontem.
Nos dedos: um resto de sêmen. Nos ouvidos: um rastro de adeus.
® Rubens da Cunha
Categoria: ah, se eu tivesse escrito isto..
Escrito por Day às 17h18
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SEM PERGUNTAS
Ballerina I by Joan Miro
Não pergunte o que faço aqui ao seu lado. Nem porque amasso esses lençóis que têm o seu cheiro e me alucinam o olfato.
Nem quais descaminhos segui no meu trajeto.
Se pareço rodar num mesmo lugar,
pode ser por puro desafeto.
Não pergunte se o que sinto,
quando olho o seu olho no meu olho, são os gritos da montanha russa que me congelam
o líquido do estômago.
Pois se eu nem mesmo sei se na busca, eu caço ou sou a caça...
Só sei que estou aqui, pêlos eriçados. Embriaguez dentro do peito.
Tumulto enluarado...
Mas não me pergunte se é por amor ou ódio.
Agosto/03
Escrito por Day às 16h59
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