Olhos do Sol


Sumindo aos poucos

Daisy Melo

 

Apparition of the Face of Aphrodite
by Salvador Dali

 

Meu rosto era tão limpo

Tão claro

Tão lavadinho...

 

E foi empoeirando-se aos poucos...

 

Cobriu-se de nódoas e fungos

virou essa mancha escassa

que foge do meu espelho.

 

Minha alma era tão limpa,

Tão clara

Tão lavadinha...

 

E foi desfazendo-se aos poucos...

 

Desmanchou-se em brumas e fumaças

Virou essa nuvem suspensa

Desalentada, enfraquecida.

 

Meu sonho era tão limpo,

Tão claro

Tão lavadinho...

 

E foi sumindo-se aos poucos...

 

Transfigurou-se, leve e mofino,

Virou bafio de coisa velha,

Indefinidamente à espera.

 

04/02/04

 

 



Escrito por Day às 14h57
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Escritores da Estácio-Letras/Barra World

Marcelo Serrano Lopes

EU SEI, EU SEI

Eu não estive aí daquela vez
Você também não veio quando quis
A gente sabe que não é por mal
Viver é cada dia mais veloz
Há muito já não ouço a sua voz
Que deve ter mudado, eu já nem sei
Se a cor do seu cabelo agora tem
Mais grave ainda ou o mesmo velho tom
Talvez eu reconheça pelo olhar
Se a gente se encontrar e sem querer
Trocar umas palavras na estação
De uma linha futura do metrô
Com nossos netos pegos pelas mãos
Vou esquecer e você vai lembrar
Daquele ano em que, no reveillon
Nos encontramos lá na beira-mar
E eu vou falar daquele carnaval
Que na verdade ainda não passou
E vamos rir de novo pra valer
A gente, que se via todo dia
E ria junto até sem ter razão
Vai seguir, cada um pro seu lugar
Pela calçada larga, quase hostil
Numa quinta qualquer do mês de abril
Se o nunca mais não nos interromper
E mesmo se a gente não se abraçar
Que intimidade é coisa que se esvai
Com o tempo, este tremor que tudo rui
Um gesto vai fazer você saber:
Você andou comigo aonde eu fui

 

NÃO QUERO DIZER-TE NADA

Não quero dizer-te nada
Assim como a história que conto
As letras eu cato na estrada
E arrumo de qualquer jeito

Não quero dizer-te nada
Qualquer verdade eu aceito
Do verso me basta a cilada
Armada dentro do peito

Não quero dizer-te nada
Escrevo para tocar
Com as pontas das palavras
A parte ainda intocada

Não quero dizer-te nada
Qualquer verbo me convém
Pois na mão dupla da estrada
O que toca é tocado também
 

DESENREDO

Caminhando nas ruas do centro
Vens a mim de repente
De um modo intermitente e esparso
E alternadamente ardo
Por gelar completamente

E se disfarço e corro
Atravesso, passo largo ao pensamento
Em ti mesmo logo adiante esbarro
Na calçada do sentimento
Furtiva a sorrir de novo

Não posso andar assim, de encontrões contigo
Sem poder dizer qualquer coisa
De amigo, de amor, de socorro
Não ouves as palavras que digo
São tolas?

Figuras por toda parte:
No espelho do coletivo
No silêncio do ambulante
Nos pés descalços dos meninos (futuros desatinos)
No cuidado do entregador de flores
Na menina que segue alegre, carregando as sapatilhas
Nos rostos pálidos nas filas
Na moça que desfila anônima
Nos poemas de Cecília num sebo da galeria...

Quase toco em ti
Mas dissolves
Para surgires mais adiante noutro ponto
Faminta, a devorar-me as horas
Adias o verso que era urgente

Lasciva, latente
Patética poesia.


Escrito por Day às 14h54
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ANJO DE PRATA
 
www.brodeurart.com
 
Um salto no escuro

Luis Valise

Visitar cemitério no verão é fogo. O labirinto de túmulos lança línguas de calor em torno do pescoço de Denise, e aqueles caminhos de chão irregular, de pedras desniveladas acabam com o salto agulha que ela não dispensa nem morta. O Alencar tanto insistira que acabou prometendo, e agora era aquele inferno.


- Você vai me visitar no cemitério, no dia do meu aniversário? Promete? Jura?


Denise prometeu, jurou, o Alencar estava tão magrinho, olhos fundos, um fiapo de voz embalada no mau-cheiro que vinha das entranhas corroídas pela coisa ruim... Sentada no criado-mudo, capuz, foice desembainhada, a morte acompanhava o papo com ar de enfado. Pouco ligava se a promessa seria ou não cumprida, só estava ali esperando o instante escrito nas estrelas, quando ela passaria o fio da lâmina sobre os cabelos ensebados: o Alencar sentiria um calafrio descendo pelo pescoço, seu peito emitiria um ronco de porco fuçando trufas, e suas falanges, falanginhas e falangetas restariam semi-curvas e abandonadas sobre o lençol azul. Um silêncio tantinho carregado de horror, e Denise não saberia dizer se o que sentiu era tristeza ou medo da liberdade. A enfermeira encostou o estetoscópio no peito descarnado, e com dedos experientes de treinador de passarinhos cerrou as pálpebras do defunto. Denise colocou os óculos escuros para ocultar a ausência de lágrimas.


Foi um enterro com poucas pessoas, porque Alencar era sujeito discreto:


- Só a família, e já é muito.


Com aquele salto agulha Denise não poderia mesmo ficar sozinha muito tempo, e quando resolveu reformar o apartamento conheceu um vendedor de persianas que começou lhe dando pêsames, e, dizendo que a vida é mesmo assim, acabou dando palpites na escolha de uma nova cama de casal.


A família do Alencar achou aquilo um escândalo, e piorou quando soube que ele era casado. Uma ex-cunhada veio tirar satisfações:


- Você ficou louca, Dê? Meu irmão nem esfriou, e você já está com outro, ainda por cima casado? Denise não caiu do salto:


- Lógico, queridinha! Melhor um casado que um com câncer.


A vida não é cinema, e logo o vendedor foi cantar em outras janelas. Mulher fiel, Denise manteve a promessa, e todo ano visita o túmulo do Alencar no dia cinco de fevereiro. Este ano caiu num sábado de carnaval, e ela dispensou viagem com uma turma de amigos ao litoral. Uma gota de suor escorre da têmpora. Denise passa a ponta dos dedos e sente os cabelos colados à testa. Por que o Alencar não nasceu em agosto? Um salto cravado na terra faz seu pé escapar do sapato. Denise apóia-se na beira de um túmulo de mármore negro, enfia a ponta do pé e puxa o sapato para cima. O longo salto está sujo de barro. Ao calçar o sapato nota as veias saltadas sobre o peito do pé. Naquela idade o salto exige mais coragem que elegância.


De longe vê uma mulher parada junto ao túmulo da família do Alencar. Aproxima-se, cumprimenta a mulher, e pára defronte ao túmulo vizinho. Queixa-se do calor. A outra mulher é mais nova, está bem-vestida e tem um lenço apertado entre os dedos. Denise, cínica:


- Marido?


- Namorado. Quer dizer... (baixando a voz) amante. Éramos amantes. Apaixonados.


- Que lindo isso... Durante quanto tempo?


- Quatro anos. O homem da minha vida. Agora, nunca mais...


Denise examinou a outra cuidadosamente. Era mais bonita. Mais elegante. E usava salto alto, altíssimos. Investigou se era coincidência:


- Difícil hoje em dia andar com esses saltos, hein? O chão todo esburacado...


- Ele adorava. Por ele eu faço tudo.


Denise se aproximou, e de repente deu um empurrão com toda a força na mulher, que sem ter onde se apoiar caiu para trás, batendo a cabeça nas pedras do calçamento. Se estava desmaiada foi por pouco tempo, porque Denise abaixou-se ao seu lado, tirou o sapato e enfiou o salto sujo de terra em seu olho esquerdo. Todinho, até o fim. A mulher teve um grande estremecimento, sentiu um frio descendo pelo pescoço, e parou de respirar. Denise enfiou o salto do sapato na terra para limpar o sangue. Depois calçou-o, e fez o caminho de volta sem se despedir do Alencar.


 


Escrito por Day às 14h27
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