Olá, voltei!

Aspettante Giulia by Rosina Wachtmeister
Demorei um pouquinho demais para atualizar o “Olhos do Sol” dessa vez. Alguns amigos (como o Rubens da Cunha, Marcelo D´Avila e Ernani Motta) reclamaram (e eu fiquei feliz com a reclamação). Com razão. Vieram me visitar e a casa estava desarrumada e bolorenta. Não têm desculpas! Mas vou dá-las mesmo assim...rs.:
Início de semestre, vida acadêmica para organizar, projetos novos pintando e precisando conviver com os antigos, dificuldades para arrumar espaço na agenda, boas perspectivas aparecendo no horizonte, retorno às coisas importantes e que me faziam bem (como a volta para a OE – Oficina de Escritores, onde reencontrei amigos queridos e talentosos) etc...etc...etc...
e... preguiça...preguiça...preguiça...
Mas o ano novo começa agora, certo? Então, vamos lá:
Estou meio britânica nesta atualização:
No Objeto de Desejo eu incluí duas poesias – realmente difíceis de escolher dentre tantas de William Butler Yeats, este maravilhoso – e um dos meus preferidos – poeta irlandês. Uma das poesias traduzidas foi cedida pelo meu amigo André Napalm Silva que, como eu, participa da comunidade do poeta no Orkut. Ele ficou de saber direitinho quem traduziu. Depois eu conto para vocês.
Seguindo a linha britânica/irlandesa um conto meu: Bloody Sunday e outro da minha amiga Leila Silva(http://cadernos-da-belgica.blogspot.com), o Canto que foi, inclusive, publicado na Revista Cult no. 100 de março/2006. Um Luxo!
Continuando, temos uma poesia minha, Sumindo aos poucos e, mais uma vez Marcelo Serrano Lopes (http://www.e-cos.blogspot.com) meu amigo da Estácio Barra World, com mais poesias lindíssimas.
Para terminar, Luis Valise – O Cyrano dos Anjos de Prata (http://www.anjosdeprata.com.br), com um conto no seu tom meio rodrigueano de ser. Fantástico como sempre.
E finalmente duas poesias maravilhosas de Neide Amback – poetisa fantástica aqui da Pedra de Guaratiba.
É isso. Espero que vocês gostem! E apareçam mais.
Até a próxima.
PS: A imagem que coloquei no início é uma homenagem para a minha gatinha Tchutchuca. Minha gatinha preta e branca. Ela morreu há um mês atrás – possivelmente veneno (ser um gato é um jeito perigoso de viver a vida). Fiquei muito triste, como era de se esperar. Mas o Marcelo Serrano Lopes (aqui, nesta atualização) me deu de presente o Mio (tinha colocado o nome dele de Skol, mas minha mãe achou um absurdo um gatinho tão pequenininho ter nome de cerveja). Ele é branco com o rabinho preto. Muito levado. E feliz! O coração está vazio no lugar que Tchutchuca ocupava, mas se esticou um pouquinho mais para caber o Mio.
Tchutchuca
Escrito por Day às 20h04
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Bloody Sunday
O domingo amanheceu ensolarado. Apenas uma névoa muita tênue e fria cobria o céu, mas todos estavam felizes, animados e se cumprimentavam pelas ruas. As crianças brincavam de pique e tudo era um rebuliço: Dublin ia arrasar os Tipperany no estádio de futebol de Croke Park.
Meu pai acordou e como sempre iluminou toda a casa com sua gargalhada límpida. E, dando um murro na mesa (coisa que ele sempre fazia quando estava feliz e deixava minha mãe louca), sacudiu as entradas do jogo bem nas nossas caras e elas quase caíram nas tigelas de mingau de aveia que eu e Mickey comíamos. Não gostava de futebol, iria só para atazanar Mickey que queria levar Joe, seu amigo ruivo e sardento. Joe olhava por debaixo do meu vestido sempre que tinha oportunidade. Desaforo!
Despedi-me da Mãe enlaçando o seu pescoço e notei os olhos vermelhos. Vi que suava tentando acender a lenha do fogão, mas sorriu olhando-me fundo, melancólica. Ela quase não sorria e chorava muito, dizendo “isso não é justo” quando o Pai gastava todo o dinheiro que recebia na usina de carvão, lá no Hennessy’s Pub bebendo Guiness. Eu não entendia porquê, pois ele chegava sempre feliz, amparado por Francis e Ivan, seus melhores amigos de bebedeira, cantando músicas antigas em gaélico. Nessa hora minha mãe ficava muito nervosa porque o gaélico era proibido. Mas meu pai gritava: “nenhum inglês de merda vai me impedir de falar minha própria língua”, e caía desmaiado sobre a cama onde roncava até de manhã.
Saímos e no caminho o Pai encontrava conhecidos que o abraçavam apertado e com eles ria grave e ruidoso. Segurei suas mãos grandes e calosas e quase precisei correr para acompanhar os passos decididos. Olhava orgulhosa para aquele homem alto e lindo, de cabelos muito escuros e lisos, caindo rebeldes e imprevisíveis, como ele, por sobre a testa e as orelhas.
O estádio estava lotado. Doze mil espectadores se aglomeravam e os torcedores começaram a se exaltar depois que Collin Farrell fez o goleiro dos Tipperany de bobo. Dublin 1X0.
De repente, o ar ficou denso e o mundo pareceu parar por alguns instantes, recomeçando devagar, em câmara lenta: os soldados da Coroa entraram marchando no estádio. Perfilaram-se e, voltados para a platéia, começaram a atirar. Ouvi gritos, gente correndo, mulheres chorando. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Nem eu. Vi por um relance, o Pai, com Mickey no colo, os olhos muito azuis quase saindo das órbitas, gritando alguma coisa para mim. Mas eu não ouvia e nem conseguia sair do lugar pois corpos de gente morta e ferida impediam meus passos. Consegui salvar Bridget, minha boneca, falando baixinho, como a Mãe falava comigo, nas noites em que os Leprechauns vinham assombrar meus sonhos, “Calma querida, tudo vai ficar bem. Os Leprechauns são bonzinhos e moram no arco-íris.” Mas aí, tudo ficou vermelho.
Nota:
Em 21 de novembro de 1920, os Blacks and Tans, tropas fiéis à Coroa, em represália à morte de 14 oficiais ingleses assassinados pelo recém-criado IRA, invadiram um estádio de futebol no Croke Park de Dublin e atiraram sobre a multidão, matando 12 pessoas, inclusive dois jogadores e três crianças, ferindo centenas de espectadores. Este episódio, ficou conhecido como Bloody Sunday, o domingo sangrento. Mas foi o primeiro.
Em 30 de janeiro de 1972, na Irlanda do Norte o movimento em favor dos direitos civis (Northern Ireland Civil Rights Association - NICRA), organizou uma passeata pacífica para protestar contra abusos e preconceitos que atingem a população católica, em especial às prisões arbitrárias e sem julgamento. O exército britânico, que havia decretado oficialmente a ilegalidade da passeata, toma as ruas de Derry. Como é sabido, o resultado foi trágico quando o exército britânico, cansado de se utilizar de “meios leves” para conter a multidão, deixou de lado as balas de borracha e partiu pra munição de verdade, acabando por assassinar e ferir algumas dezenas de pessoas. O episódio ficou famoso com a canção imortalizada pelo U2.
Escrito por Day às 16h41
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Objeto do Desejo
William Butler Yeats

William Butler Yeats *1865 † 1939
"Espalhei meus sonhos aos seus pés. Caminhe devagar, pois você estará pisando neles".
William Butler Yeats nasceu em Dublin, Irlanda, em 13 de Junho de 1865. As famílias de ambos os pais, apesar de estarem na Irlanda a mais de duzentos anos, prezavam sua origem inglesa e protestante, sendo seu avô materno um prospero comerciante. Yeats não se identificou com sua classe social, a poderosa minoria protestante, desagradando-lhe suas excessivas preocupações materiais; mas tampouco adotou o catolicismo, religião da maioria da população irlandesa; ao invés disso buscou aprofundar-se nas raízes culturais, antigos mitos e folclore da Irlanda. Sempre deixou claro que era um poeta irlandês e não inglês, e participou ativamente do movimento pela independência da República da Irlanda. Em 1920 é aprovada a criação do Estado Livre da Irlanda, do qual Yeats se tornou senador em 1922. Casou-se em 1917 com George Hyde-Lees e teve dois filhos. Em 1923 ganhou o Prêmio Nobel de literatura, sendo o primeiro irlandês a consegui-lo. Acreditava que a autonomia política conquistada por seu país não era suficiente, e que o mais importante era a identidade cultural irlandesa e a independência em relação ao materialismo inglês. Propunha que a riqueza da cultura irlandesa residia em seu antigo ideal de vida, uma vida campestre refletida nas lendas e mitos folclóricos, e que esta cultura única deveria ser reavivada e preservada. Estas raízes folclóricas incluem uma importante quantidade de misticismo e ocultismo, que estão presentes em toda a obra do poeta, mas que tornam-se ainda mais fortes com o seu amadurecimento. Foi após os seus 50 anos de idade que escreveu as poesias consideradas unanimemente como seus melhores trabalhos. Yeats produziu até o fim da vida, e morreu em 28 de janeiro de 1939, aos 74 anos de idade.
www.casadacultura.org/Literatura/
Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 16h31
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Objeto do Desejo
William Butler Yeats

Ah Wishes For The Clothes Of Heaven
Had I the heavens' embroidered cloths, Enwrought with golden and silver light, The blue and the dim and the dark cloths Of night and light and the half light, I would spread the cloths under your feet: But I, being poor, have only my dreams; I have spread my dreams under your feet; Tread softly because you tread on my dreams.
Ele deseja Céus de Pano.
Tivesse eu os céus bordados em panos, Envolvidos por luz dourada e prateada, Azuis claros dia e noites escuros os panos, Representando o dia e a noite enluarada,
Eu os espalharia sob seus pés; Mas, sendo tão pobre, tenho apenas sonhos; Espalhei então meus sonhos ao invés; Caminhe suavemente: você pisa em meus sonhos.
The sorrow of love
The quarrel of the sparrows in the eaves, The full round moon and the star-laden sky, And the loud song of the ever-singing leaves, Had hid away earth’s old and weary cry .
And then you came with those red mournful lips, And with you came the whole of the world’s tears, And all the trouble of her labouring ships, And all the trouble of her myriad years.
And now the sparrows warring in the eaves, The curd-pale moon, the white stars in the sky, And the loud chaunting of the unquiet leaves, Are shaken with earth’s old and weary cry
As penas do amor
Tradutor: André C S Masini
Sobre os telhados a algazarra dos pardais, Redonda e cheia a lua - e céu de mil estrelas, E as folhas sempre a murmurar seus recitais, Haviam esquecido o mundo e suas mazelas.
Então chegaram teus soturnos lábios rosas, E junto a eles todas lágrimas da terra, E o drama dos navios em águas tempestuosas E o drama dos milhares de anos que ela encerra.
E agora, no telhado a guerra dos pardais, A lua pálida, e no céu brancas estrelas, De inquietas folhas, cantilenas sempre iguais, Estão tremendo - sob o mundo e suas mazelas.
Copyright © André C S Masini, 2000 Todos os direitos reservados. Tradução publicada originalmente no livro "Pequena Coletânea de Poesias de Língua Inglesa"
Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 15h26
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Ah, se eu tivesse escrito isso...
Leila Silva

Green Eggs and Nest by Linnea Pergola
Fear no more the heat o’ the sun Nor the furious winter’s rages.” Shakespeare
Londres. Uma mulher canta uma música antiga. Cantava, naquela mesma calçada, em frente à estação Regents Park, desde 1923. Um canto que celebrava a vida e Laura só conseguia pensar na morte. Aquela língua não era a sua, mas havia uma tal beleza na voz e nas palavras. Como podia estar ali por tanto tempo? Laura tinha decidido que naquele dia ia fazer pães de queijo. A mãe explicara tudo por telefone. Peter era tão britânico, até na forma de comer, não ia gostar, tinha certeza, mas ia experimentar e ia dizer “Oh, darling!” Peter era tão britânico, mais que isso, era tão londrino, suportava 15 dias fora de Londres, não mais. O céu de Londres era tão diferente do dela. Como é que duas pessoas estranhas decidem viver juntas? Em que momento? Irracional e humano.
Tinha saído para comprar ovos e polvilho, aquela sacola agora a incomodava. Peter nunca ia gostar dos seus pães de queijo, ainda que ela os fizesse como a sua mãe. Tinha graça preparar tudo aquilo só para ela? Ia preparar, tinha tomado esta decisão pela manhã, durante a noite, aliás.
Tinha dormido pouco, muito pouco. Coloca a sacola com os ovos no chão, a seus pés, enfia as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las enquanto ouve a velha e o seu canto que celebra a vida, então um menino passa de patins, esbarra nos ovos, vira-se e, sem parar, diz: “Sorry!” Laura abre a sacola, enojada, vê uma gosma formada por algum ovo quebrado. Quantos? Ainda tinha o suficiente para a sua receita, não precisava de mais que três.
Sente as mãos geladas, mete-as de novo no bolso e volta a olhar para a mulher. A mãe de Peter, tampouco, ia gostar dos pães de queijo, era um saco ver aquelas caras educadas, mal engolindo a comida, com um prazer fingido. Propositadamente fingido. Coisas que ela, Laura, adorava. E o respeito que tinham pela família real!? Tratar aqueles bonecos com tanto apreço, palhaçada... Enfim, maldade julgá-los somente por este ângulo. O que tinha ela hoje? Laura! Laura! Acorda. Essa mulher, daqui há milênios, vai estar cantando esta mesma canção. Londres era tão fria em janeiro. Quantos janeiros já tinha passado ali?
Não era verdade que pensava na morte. Como podia pensar na morte carregando a vida em seu próprio ventre? A continuação dela e de Peter, e da mãe de Peter que defendia a monarquia e do pai de Peter que não vivia mais e de sua mãe que tentava lhe ensinar, de longe, a fazer pães de queijo e que depois chorava ao telefone. “Minha filhinha!” Bobagem, não era exatamente na morte que estivera pensando. Mulher nenhuma... Todo mundo, garantiu o médico, tinha seus momentos e nesse estado, então, era mais do que perdoável. Perdoável? O médico tinha dito isso? Perdoável? Ou foi Peter? Ela tinha que ser perdoada? Sente, no fundo do bolso, uma moeda, joga-a para a mulher que cantava, e ela move os olhos. Agradecidos? Um discreto tilintar. Laura pega a sacola, entra na estação de metrô e caminha pensando em Peter. Peter que já devia estar esperando em casa para escolherem juntos a cor do quarto do bebê.
Escrito por Day às 17h09
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