Olhos do Sol

"cry me a river..."


Cry me a river...

Maria Helena Bandeira

 

Before the Moment
by Linda Carter Holman

 

        
 

Summertime

 

“Summertime,
Child, the living's easy.
Fish are jumping out
And the cotton, Lord,
Cotton's high, Lord, so high”

 

 

           Billie dedilhou os primeiros acordes de Summertime... Mimi entrou com sua voz rouca,  Janis... a música lancinante  percorria  as mesas quase vazias do fim de noite. 

           Eu acompanhava, fazendo o backing na surdina... child, the living’s eaaasy...  quando ela incorporava a Joplin  não havia outro caminho senão aproveitar.

           Mimi era uma grande cantora, teria sido famosa se tivesse nascido no sul dos states e não no norte da zona. Fish are jumping out... annnnnnd the cotton is hiiighhhh....

           Tinha um timbre rascante e dolorido que lembrava a outra, um fraseado jazzístico, incongruente naquele mundo empoeirado dos cigarette blues.

           E a imponência, o corpo escultural onde os anos iam acrescentando gorduras sem boa-vontade. Pintava o cabelo de louro, para imitar Marina, mas era morena da terra, brasileira, alma de Janis, voz de Janis em corpo de axé.

           Cantava forró de raiva e samba em desespero, com sua alma de blues. Ela era summmertime, cover de Joplin.. arrepiante.

           E se apaixonava por caminhoneiros.



Escrito por Day às 13h52
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           Toda a intensidade de seu rouco desempenho lembrava aqueles amores baldios. Os caras sumiam na poeira da estrada. Fazer o que? Éramos cometas encontrando cometas em órbitas disparatadas.

           Mimi bebia muito e desconfio que isto ajudava seu desempenho absurdamente forte. Todos nós afogávamos a voz, o piano, a guitarra e os blues no fundo do copo e na fumaça dos baseados.

           Naquela noite estava melhor do que nunca... summertime....  a voz contracenando com a guitarra,  dura, incomparável... Oh, your daddy's rich  and your ma is so....de repente ela se curvou e desabou no palco...

           Corremos, Blllie , Marina e eu e a retiramos do chão, se esvaindo em sangue.

           Os poucos fregueses olhavam assustados, mas mal perceberam  o que acontecera.

           No camarim, deitei Mimi na  minha cama, pálida, ainda sangrando:

- Billie já foi buscar o médico...

- Eu .. não quero médico.. você sabe... não posso... tentou se levantar



Escrito por Day às 13h49
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- Fica quieta!...-  segurei sua mão - ... Por que, Mimi?

- Eu pensei...ele disse...  - começou a chorar baixinho

- Ta bom, fica quietinha... quem sabe ele não vai voltar?..  te procurar... 

- Não vai não... mas eu, eu acreditei... idiotas nós.. todas nós – recomeçou a chorar silenciosamente

- Não foi idiotice.. foi amor – minha voz estava rouca

- Amor... – nem que eu viva mil anos, vou esquecer o olhar dela para mim, cão batido era isto.

           Mimi se recuperou rápido, se apaixonou de novo, encarnava Janis na poeira de estrelas.. summertime... Child, the living’s easy.. 

           Quando sentiu que a gordura venceria as curvas, baixou os olhos para a terra. e entre os amantes do forró conheceu seu fazendeiro – um sitiante de Maria da Ajuda, vilarejo perto de Cabuçu.

           Ele vinha todas as noites ao barzinho sórdido só para ver Mimi. E até passou a curtir Joplin... Hush baby baby, baby, no no no, no, no, no, Don’t cry,  don't you cry ...amor de verdade.

           Outra vez se curvando, caindo no palco, desta vez com  braços fortes para ampará-la.

           Mimi casou na Igrejinha caiada, de véu e grinalda.

           No coro, Billie tocou Sophisticated Lady pela primeira vez para outra mulher e eu, com voz de Janis, acompanhei a guitarra dolorida... You're gonna spread your wings... Foi o nosso adeus.

           Saímos pela noite estrelada sem olhar para trás.

           Mimi reencontrara a inocência perdida.

           Na rodoviária deserta, Marina observou que era verão, summertime. Por alguma razão que eu não consigo recapturar, achamos aquilo espantosamente engraçado. E continuamos a rir até explodir a madrugada.

 



Escrito por Day às 13h47
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Cry me a river

Os Cigarettes Blues

Olha ela aí de novo,

Maria Helena Bandeira

Dane Tilghman Blues Jam Print

Blues Jam

Dane Tilghman

Sophisticated Lady

 

And when nobody is nigh, you cry,

You cry, you cry.” ( Sophisticated Lady )

 

 

Quando Billie ficava absurdamente triste se agarrava aos baseados.

Nós todos fumamos, em épocas diferentes, junto com os dry martinis  de Marina, ou  as cervejas de Mimi. Eu me embebedava de vinho barato e me via, a música soluçando de beleza.

Billie preferia o uísque paraguaio.  E quando estava absurdamente triste se apegava aos baseados e tocava Sophisticated Lady para Marina.

Ela não entendia a homenagem. Nunca considerou a hipótese de  dar a ele um pequeno pedaço de seu corpo alvo. Marina estava nos Cigarette Blues  até surgir o empresário que iria tira-la do anonimato das nossas estradas rotas.

Com seus cabelos dourados e olhos azuis, fazia uivar os rudes caminhoneiros, mas nunca percebeu sua presença. Era como uma estrela, distante, abstrata, intocada por toda aquela sordidez.

Billie percebia isto e às vezes ficava absurdamente triste e fumava mais baseados do que o normal.

Uma noite, em São Tomé da Serra, depois de um  espetáculo lancinante de guitarra -  Sophisticated Lady para Marina -  antes dos banheiros e do café, encontrei Billie no camarim, rosto vermelho, olhar brilhante, vago. Tive certeza

- Você anda cheirando?

Ele me olhou irritado, não respondeu.

- Vi o Mejicano com você, no intervalo...

-  Deixa de ser babaca, falou? Cuida da droga da sua vida!...

Eu fiquei calada. Porra, não era da minha conta, era? Que se danassem, ele, Marina, Mimi e toda a população desta merda de Terra redonda.

Nunca mais toquei no assunto.

Éramos cometas em cada uma daquelas cidades escondidas, retornando um pouco mais velhos, mais gastos, mais amargos, derramando nosso sangue blues pelos tristes bares das periferias decadentes. Como as cortinas gastas e os falsos cristais do lustre – um cenário ultrapassado.

A polícia pegou Billie numa batida idiota – Colette, o travesti velho, deu uma navalhada em Luigi,  seu amante jovem. O sangue e a gritaria histérica atraíram a atenção dos Homens. Eles deram uma vistoria nos camarins e acharam o pó.

Fui visitar Billie na cadeia.



Escrito por Day às 18h29
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Cry me a river...

Abatido, os cabelos despenteados, cheiro de urina e um sabor de coração sujo.

Tivemos que improvisar um show sem guitarra, num barzinho em frente á funerária.  Só com o piano de Marina que se acompanhava todas as noites cantando Sophisticated Lady. Sabe-se lá porque. Marina era estranha. Mas tinha uma voz linda, um  timbre aveludado ,às vezes rouco, uma alma de blueseira.

Os participantes dos velórios gostavam dos blues lancinantes, da beleza de Marina ou da bunda de Mimi. O fato é que tínhamos casa cheia todas as noites.

Enquanto Billie aguardava julgamento, cantamos para acompanhantes de defuntos, nós, mais mortos do que eles,  em nossos caixões de luzes azuis.

Um dia não agüentei, fui ao delegado e abri meu coração. Falei da estrada empoeirada, dos sanduíches frios, dos clientes sem paciência e sem educação, dos ouvidos duros, dos assentos  nos ônibus arrebentados, das noites mal-dormidas, de toda a humilhação... um blues interminável e dolorido.  

O Homem entendeu, talvez, não sei. Soltou Billie na sexta-feira, de surpresa.

Ele apareceu no meio da noite. Marina cantava Sophisticated Lady.

Ficou ali, parado, ouvindo - nós no backing vocal, meu coração na boca, morrendo. E a música quase doentia de Marina, linda, longínqua.

Billie apanhou a guitarra e acompanhou. O blues subia pelos seios dela ,tocava os cabelos, dava para sentir o cheiro da paixão. Um gemido de cão abandonado, dolorido, sinuoso. A voz dela acompanhava rouca, estranha, apartada, indecifrável.

Eu olhava para Billie ali, envelhecido, ouvia o lamento da guitarra, a voz dela ecoando e então eu soube que era amor o que sentia.

Esfrangalhado, encardido, esgarçado, roto, amarfanhado, mas amor.

Me suicidei nesta noite com dez tequilas, três dry martinis e cerveja.

Fui enterrada em mim sem choro ou velas. 

 

 



Escrito por Day às 18h19
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Os cigarettes blues 2

Na sequência, a prosa maravilhosa de Maria Helena Bandeira:

 

 

Blues
by Jesse Reisch

Under my skin

 

 

... “So deep in my heart...”

 

 

Estava lá de novo. O cabelo oleoso, a franja meio ondulada, um batom que ultrapassava os lábios murchos, grandes olheiras de rímel e vida.

O copo de uísque falsificado na mesa, cigarro entre os dedos e o sorriso gasto.

Vinha sempre pedir a mesma música, no final do espetáculo quando a maioria dos fregueses já tinha ido embora e era possível resgatar os blues na guitarra desafinada

Blues... cada um de nós.. blues

No vazio indeterminado da noite empoeirada de estrelas, saíamos para um café fumegante. Mimi, cachos dourados desalinhados, procurando um espelho antes do xixi. Marina emburrada por causa dos caminhoneiros. E Billie, o meu Billie olhos de fumaça e cafeína.

E a mesma música na madrugada, lamento fundo da guitarra e da voz anasalada de Marina I’ve got you under my skin”... yaaa I‘ve got you... under... uuuuunder... uuuunder  my skiiiiiiiiiiiiiin...

Depois ela saia, a dignidade intacta, e deixava umas notas amarfanhadas sobre a mesa.

Todas as vezes em que voltamos a São José do Imbassaí estava lá. Esperando e pedindo a música de sempre. Depois nem isto. Era olhar para ela, esperar a saída dos clientes das baladas medíocres, dos faroestes caboclos, para deixar sair a música enfartada, quase doente dos verdadeiros Cigarette blues. Under my skin.

Uma noite falhou.



Escrito por Day às 12h23
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Os cigarettes blues 2 (cont.)

A cadeira vazia me deixou amarga. Via o dente dourado de Billie na fúria da guitarra me chamando e não conseguia acompanhar.. um aperto no coração.. under my skin.

Duas noites depois reapareceu.

Antes mesmo da sessão coruja do rasga coração, fui procurá-la em sua mesa.

Sorria, os dentes estragados entre o batom que extravasava os lábios. Os olhos pintados estavam sérios, brilhantes.

- Você não veio... sentimos sua falta... palavras vazias, tentativa de estabelecer um contato impossível.. o que eu fazia ali, meu Deus? Apanhei um cigarro e pedi fogo, ela colou a guimba  sem dizer palavra.

Me preparei pra sair, merda de vida, quando respondeu:

- Ele voltou. 

- Voltou?.. repeti estupidamente - que bom.

- É foi bom mesmo... tantos anos depois. Como se não tivesse saído. Estamos juntos outra vez acredita?

“ Não” mas respondi com um sorriso falso

- Claro.

Os olhos dela brilhavam. Seriam lágrimas? Merda de vida.

Billie sorriu para nós e começou “ I’ve got you”...

Ela umedeceu a lingua ligeiramente, aspirou a fumaça e repetiu.. under my skin

Lá fora era clamorosamente dezembro.

 

Maria Helena Bandeira

 



Escrito por Day às 12h13
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Eu havia planejado (fiz uma listinha imensa por sinal, coisa que, comigo, nunca dá certo), que iria postar meus OBJETOS DO DESEJO uma vez por semana: dois OBJETOS DO DESEJO - um autor, ainda, não reconhecido pela mídia, mas quase lá, e outro, consagrado, que me falasse fundo ao coração. Não consegui. Viver nesse universo de letras e palavras, de amor e arte. Paixão e Dor (víceras, muitas vezes, espalhadas), é complicado. É viver num shopping com inúmeras vitrines e  muito dinheiro para gastar. A oferta está aí. Nós damos. Recebe quem pode.

Não consegui e resolvi postar, então, outra coluna. Homenagearei,nesta,  minha amiga querida e carismática, bruxa e irlandesa. Uma e todas, Maria Helena Bandeira. Ela é tão boa, mas tão boa que resolvi criar uma outra coluna (a única? humm... será?... E as "Cartas do Alfredo? Vejam no próximo capítulo, rs...) e postar alguns contos da moçoila.

Iniciarei com a saga do jazz: Os Cigarettes Blues

Leiam e delirem:



Escrito por Day às 00h33
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Os Cigarettes Blues

CIGARETTE BLUES

" Cry me a river... I cried a river over you"

Nem lembro mais o porque do nome da banda. Acho que foi a sonoridade. Ao nosso inglês precário parecia bonito - cigarros e azuis, tristezas e blues, como os que cantávamos imitando Billie.

Então ficou Cigarettes Blues mesmo depois que aprendemos alguma coisa das letras que cantávamos pelos bares da vida. Nas estradas perdemos a ilusão e o blues. Ficaram os cigarros, as tosses noturnas, pastilhas meladas nos bolsos e a guitarra desconjuntada do Billie.

Billie se chamava Edvaldo, morava em Cachambi e tinha um dente de ouro lateral que aparecia quando cantava. O cabelo continuou comprido, sobrevivendo à moda e ao desencanto.

Ninguém se interessava pela música que amávamos, os marginais dos bares sórdidos queriam lamentos caipiras e mais recentemente, sambas abolerados, ou pior sambas rurais, um pastiche absurdo de ritmos, transformados em sopa cáustica que descia pelos nosso ouvidos como lâmina. Fazer o que? beber e fumar que era a sobra após a divisão dos ganhos.

Mimi desistiu primeiro. Arrumou um fazendeiro rico, na versão sonhadora dela, um sitiante remediado segundo as más línguas das banguelas.

Ficamos os três sobreviventes: Marina, Billie e eu.

Marina era bonita, podia ter escolhido vida melhor, mas foi atrás dos Cigarettes bues e das luzes da ribalta. Ficou arrastando perdidas ilusões pelas sórdidos palcos das cidadezinhas minúsculas, em periferias empoeiradas. Seu cabelo brilhante permaneceu com a ajuda da química, mas uma auréola grisalha justificava os traços gastos, as olheiras escuras e a voz rouca.

Tudo isto eu podia suportar. Suportei sempre, mesmo quando o sonho virou pesadelo, pior, virou tédio, vazio, vozes na madrugada, vaias, conversas paralelas enquanto cantávamos, só de pirraça, nossos antigos blues na guitarra desafinada.

Mas quando o cara começou a nos descompor, quando levantou da mesa com sua garrafa de uísque, sua arrogância de freguês rico, quando nos chamou Cigamerdas blues, eu não agüentei.

Lembro de tudo como num filme - eu andando em câmera lenta até a nossa mesa, abrindo a bolsa, pegando o velho revólver companheiro da estrada.. e atirando ...atirando, atirando e atirando... uma bala para a dor... para a humilhação, pelos sonhos desfeitos, outra ainda pelas roupas rasgadas, os cabelos compridos, o dente de ouro, os cigarettes das madrugadas, os blues esfarrapados.. até descarregar o tambor, até me esvair em lágrimas quentes que carregaram embora a visão do sangue, da noite, da vida.

Não atirei no cara, entende?.. não, não foi nele. Foi em nós.

Nos cigarette blues.

Maria Helena Bandeira



Escrito por Day às 00h30
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