Olhos do Sol


Olá, voltei!

Aspettante Giulia
by Rosina Wachtmeister

 

Demorei um pouquinho demais para atualizar o “Olhos do Sol” dessa vez. Alguns amigos (como o Rubens da Cunha, Marcelo D´Avila e Ernani Motta) reclamaram (e eu fiquei feliz com a reclamação). Com razão. Vieram me visitar e a casa estava desarrumada e bolorenta.  Não têm desculpas! Mas vou dá-las mesmo assim...rs.:

Início de semestre, vida acadêmica para organizar, projetos novos pintando e precisando conviver com os antigos, dificuldades para arrumar espaço na agenda, boas perspectivas aparecendo no horizonte, retorno às coisas importantes e que me faziam bem (como a volta para a OE – Oficina de Escritores, onde reencontrei amigos queridos e talentosos) etc...etc...etc...

e... preguiça...preguiça...preguiça...

 

Mas o ano novo começa agora, certo? Então, vamos lá:

 

Estou meio britânica nesta atualização:

 

No Objeto de Desejo eu incluí duas poesias – realmente difíceis de escolher dentre tantas de William Butler Yeats, este maravilhoso – e um dos meus preferidos – poeta irlandês. Uma das poesias traduzidas foi cedida pelo meu amigo André Napalm Silva que, como eu, participa da comunidade do poeta no Orkut. Ele ficou de saber direitinho quem traduziu. Depois eu conto para vocês.

 

Seguindo a linha britânica/irlandesa um conto meu: Bloody Sunday e outro da minha amiga Leila Silva(http://cadernos-da-belgica.blogspot.com), o Canto que foi, inclusive, publicado na Revista Cult no. 100 de março/2006. Um Luxo!

Continuando, temos uma poesia minha, Sumindo aos poucos e, mais uma vez Marcelo Serrano Lopes (http://www.e-cos.blogspot.com) meu amigo da Estácio Barra World, com mais poesias lindíssimas.

Para terminar, Luis Valise – O Cyrano dos Anjos de Prata (http://www.anjosdeprata.com.br), com um conto no seu tom meio rodrigueano de ser. Fantástico como sempre.

E finalmente duas poesias maravilhosas de Neide Amback – poetisa fantástica aqui da Pedra de Guaratiba.

É isso. Espero que vocês gostem! E apareçam mais.

 

Até a próxima.

 

PS: A imagem que coloquei no início é uma homenagem para a minha gatinha Tchutchuca. Minha gatinha preta e branca. Ela morreu há um mês atrás – possivelmente veneno (ser um gato é um jeito perigoso de viver a vida). Fiquei muito triste, como era de se esperar. Mas o Marcelo Serrano Lopes (aqui, nesta atualização) me deu de presente o Mio (tinha colocado o nome dele de Skol, mas minha mãe achou um absurdo um gatinho tão pequenininho ter nome de cerveja). Ele é branco com o rabinho preto. Muito levado. E feliz! O coração está vazio no lugar que Tchutchuca ocupava, mas se esticou um pouquinho mais para caber o Mio.

Tchutchuca



Escrito por Day às 20h04
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Bloody Sunday

O domingo amanheceu ensolarado. Apenas uma névoa muita tênue e fria cobria o céu, mas todos estavam felizes, animados e se cumprimentavam pelas ruas. As crianças brincavam de pique e tudo era um rebuliço: Dublin ia arrasar os Tipperany no estádio de futebol de Croke Park.

Meu pai acordou e como sempre iluminou toda a casa com sua gargalhada límpida. E, dando um murro na mesa (coisa que ele sempre fazia quando estava feliz e deixava minha mãe louca), sacudiu as entradas do jogo bem nas nossas caras e elas quase caíram nas tigelas de mingau de aveia que eu e Mickey comíamos. Não gostava de futebol, iria só para atazanar Mickey que queria levar Joe, seu amigo ruivo e sardento. Joe olhava por debaixo do meu vestido sempre que tinha oportunidade. Desaforo!

Despedi-me da Mãe enlaçando o seu pescoço e notei os olhos vermelhos. Vi que suava tentando acender a lenha do fogão, mas sorriu olhando-me fundo, melancólica. Ela quase não sorria e chorava muito, dizendo “isso não é justo” quando o Pai gastava todo o dinheiro que recebia na usina de carvão, lá no Hennessy’s Pub bebendo Guiness. Eu não entendia  porquê, pois ele chegava sempre feliz, amparado por Francis e Ivan, seus melhores amigos de bebedeira, cantando músicas antigas em gaélico. Nessa hora minha mãe ficava muito nervosa porque o gaélico era proibido. Mas meu pai gritava: “nenhum inglês de merda vai me impedir de falar minha própria língua”, e caía desmaiado sobre a cama onde roncava até de manhã.

Saímos e no caminho o Pai encontrava conhecidos que o abraçavam apertado e com eles ria grave e ruidoso. Segurei suas mãos grandes e calosas e quase precisei correr para acompanhar os passos decididos. Olhava orgulhosa para aquele homem alto e lindo, de cabelos muito escuros e lisos, caindo rebeldes e imprevisíveis, como ele, por sobre a testa e as orelhas.

O estádio estava lotado. Doze mil espectadores se aglomeravam e os torcedores começaram a se exaltar depois que Collin Farrell fez o goleiro dos Tipperany de bobo. Dublin 1X0.

De repente, o ar ficou denso e o mundo pareceu parar por alguns instantes, recomeçando devagar, em câmara lenta: os soldados da Coroa entraram marchando no estádio. Perfilaram-se e, voltados para a platéia, começaram a atirar. Ouvi gritos, gente correndo, mulheres chorando. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Nem eu. Vi por um  relance, o Pai, com Mickey no colo, os olhos muito azuis quase saindo das órbitas, gritando alguma coisa para mim. Mas eu não ouvia e nem conseguia sair do lugar pois corpos de gente morta e ferida impediam meus passos. Consegui salvar Bridget, minha boneca, falando baixinho, como a Mãe falava comigo, nas noites em que os Leprechauns vinham assombrar meus sonhos, “Calma querida, tudo vai ficar bem. Os Leprechauns são bonzinhos e moram no arco-íris.” Mas aí, tudo ficou vermelho.

 

Nota:

Em 21 de novembro de 1920, os Blacks and Tans, tropas fiéis à Coroa, em represália à morte de 14 oficiais ingleses assassinados pelo recém-criado IRA, invadiram um estádio de futebol no Croke Park de Dublin e atiraram sobre a multidão, matando 12 pessoas, inclusive dois jogadores e três crianças, ferindo centenas de espectadores. Este episódio, ficou conhecido como Bloody Sunday, o domingo sangrento. Mas foi o primeiro.

Em 30 de janeiro de 1972, na Irlanda do Norte o movimento em favor dos direitos civis (Northern Ireland Civil Rights Association - NICRA),  organizou uma passeata pacífica para protestar contra abusos e preconceitos que atingem a população católica, em especial às prisões arbitrárias e sem julgamento. O exército britânico, que havia decretado oficialmente a ilegalidade da passeata, toma as ruas de Derry. Como é sabido, o resultado foi trágico quando o exército britânico, cansado de se utilizar de “meios leves” para conter a multidão, deixou de lado as balas de borracha e partiu pra munição de verdade, acabando por assassinar e ferir algumas dezenas de pessoas. O episódio ficou famoso com a canção imortalizada pelo U2.  



 



Escrito por Day às 16h41
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Objeto do Desejo

William Butler Yeats

William Butler Yeats *1865 † 1939

 "Espalhei meus sonhos aos seus pés. Caminhe devagar, pois você estará pisando neles".

William Butler Yeats nasceu em Dublin, Irlanda, em 13 de Junho de 1865. As famílias de ambos os pais, apesar de estarem na Irlanda a mais de duzentos anos, prezavam sua origem inglesa e protestante, sendo seu avô materno um prospero comerciante. Yeats não se identificou com sua classe social, a poderosa minoria protestante, desagradando-lhe suas excessivas preocupações materiais; mas tampouco adotou o catolicismo, religião da maioria da população irlandesa; ao invés disso buscou aprofundar-se nas raízes culturais, antigos mitos e folclore da Irlanda. Sempre deixou claro que era um poeta irlandês e não inglês, e participou ativamente do movimento pela independência da República da Irlanda. Em 1920 é aprovada a criação do Estado Livre da Irlanda, do qual Yeats se tornou senador em 1922. Casou-se em 1917 com George Hyde-Lees e teve dois filhos. Em 1923 ganhou o Prêmio Nobel de literatura, sendo o primeiro irlandês a consegui-lo. Acreditava que a autonomia política conquistada por seu país não era suficiente, e que o mais importante era a identidade cultural irlandesa e a independência em relação ao materialismo inglês. Propunha que a riqueza da cultura irlandesa residia em seu antigo ideal de vida, uma vida campestre refletida nas lendas e mitos folclóricos, e que esta cultura única deveria ser reavivada e preservada. Estas raízes folclóricas incluem uma importante quantidade de misticismo e ocultismo, que estão presentes em toda a obra do poeta, mas que tornam-se ainda mais fortes com o seu amadurecimento. Foi após os seus 50 anos de idade que escreveu as poesias consideradas unanimemente como seus melhores trabalhos. Yeats produziu até o fim da vida, e morreu em 28 de janeiro de 1939, aos 74 anos de idade.

www.casadacultura.org/Literatura/



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 16h31
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Objeto do Desejo

William Butler Yeats

Ah Wishes For The Clothes Of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

 

Ele deseja Céus de Pano.

Tivesse eu os céus bordados em panos,
Envolvidos por luz dourada e prateada,
Azuis claros dia e noites escuros os panos,
Representando o dia e a noite enluarada,

Eu os espalharia sob seus pés;
Mas, sendo tão pobre, tenho apenas sonhos;
Espalhei então meus sonhos ao invés;
Caminhe suavemente: você pisa em meus sonhos.


 

The sorrow of love

 

The quarrel of the sparrows in the eaves,
The full round moon and the star-laden sky,
And the loud song of the ever-singing leaves,
Had hid away earth’s old and weary cry .

And then you came with those red mournful lips,
And with you came the whole of the world’s tears,
And all the trouble of her labouring ships,
And all the trouble of her myriad years.

And now the sparrows warring in the eaves,
The curd-pale moon, the white stars in the sky,
And the loud chaunting of the unquiet leaves,
Are shaken with earth’s old and weary cry

As penas do amor

 Tradutor: André C S Masini

Sobre os telhados a algazarra dos pardais,
Redonda e cheia a lua - e céu de mil estrelas,
E as folhas sempre a murmurar seus recitais,
Haviam esquecido o mundo e suas mazelas.

Então chegaram teus soturnos lábios rosas,
E junto a eles todas lágrimas da terra,
E o drama dos navios em águas tempestuosas
E o drama dos milhares de anos que ela encerra.

E agora, no telhado a guerra dos pardais,
A lua pálida, e no céu brancas estrelas,
De inquietas folhas, cantilenas sempre iguais,
Estão tremendo - sob o mundo e suas mazelas.

Copyright © André C S Masini, 2000
Todos os direitos reservados. Tradução publicada originalmente
no livro "Pequena Coletânea de Poesias
de Língua Inglesa"

 



Categoria: Objeto do Desejo
Escrito por Day às 15h26
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Ah, se eu tivesse escrito isso...

Leila Silva

Green Eggs and Nest
by Linnea Pergola

Fear no more the heat o’ the sun
Nor the furious winter’s rages.”
Shakespeare

Londres. Uma mulher canta uma música antiga. Cantava, naquela mesma calçada, em frente à estação Regents Park, desde 1923. Um canto que celebrava a vida e Laura só conseguia pensar na morte. Aquela língua não era a sua, mas havia uma tal beleza na voz e nas palavras. Como podia estar ali por tanto tempo? Laura tinha decidido que naquele dia ia fazer pães de queijo. A mãe explicara tudo por telefone. Peter era tão britânico, até na forma de comer, não ia gostar, tinha certeza, mas ia experimentar e ia dizer “Oh, darling!” Peter era tão britânico, mais que isso, era tão londrino, suportava 15 dias fora de Londres, não mais. O céu de Londres era tão diferente do dela. Como é que duas pessoas estranhas decidem viver juntas? Em que momento? Irracional e humano.

Tinha saído para comprar ovos e polvilho, aquela sacola agora a incomodava. Peter nunca ia gostar dos seus pães de queijo, ainda que ela os fizesse como a sua mãe. Tinha graça preparar tudo aquilo só para ela? Ia preparar, tinha tomado esta decisão pela manhã, durante a noite, aliás.

Tinha dormido pouco, muito pouco. Coloca a sacola com os ovos no chão, a seus pés, enfia as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las enquanto ouve a velha e o seu canto que celebra a vida, então um menino passa de patins, esbarra nos ovos, vira-se e, sem parar, diz: “Sorry!” Laura abre a sacola, enojada, vê uma gosma formada por algum ovo quebrado. Quantos? Ainda tinha o suficiente para a sua receita, não precisava de mais que três.

Sente as mãos geladas, mete-as de novo no bolso e volta a olhar para a mulher. A mãe de Peter, tampouco, ia gostar dos pães de queijo, era um saco ver aquelas caras educadas, mal engolindo a comida, com um prazer fingido. Propositadamente fingido. Coisas que ela, Laura, adorava. E o respeito que tinham pela família real!? Tratar aqueles bonecos com tanto apreço, palhaçada... Enfim, maldade julgá-los somente por este ângulo. O que tinha ela hoje? Laura! Laura! Acorda. Essa mulher, daqui há milênios, vai estar cantando esta mesma canção. Londres era tão fria em janeiro. Quantos janeiros já tinha passado ali?

Não era verdade que pensava na morte. Como podia pensar na morte carregando a vida em seu próprio ventre? A continuação dela e de Peter, e da mãe de Peter que defendia a monarquia e do pai de Peter que não vivia mais e de sua mãe que tentava lhe ensinar, de longe, a fazer pães de queijo e que depois chorava ao telefone. “Minha filhinha!” Bobagem, não era exatamente na morte que estivera pensando. Mulher nenhuma... Todo mundo, garantiu o médico, tinha seus momentos e nesse estado, então, era mais do que perdoável. Perdoável? O médico tinha dito isso? Perdoável? Ou foi Peter? Ela tinha que ser perdoada?
Sente, no fundo do bolso, uma moeda, joga-a para a mulher que cantava, e ela move os olhos. Agradecidos? Um discreto tilintar. Laura pega a sacola, entra na estação de metrô e caminha pensando em Peter. Peter que já devia estar esperando em casa para escolherem juntos a cor do quarto do bebê.

 



Escrito por Day às 17h09
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Sumindo aos poucos

Daisy Melo

 

Apparition of the Face of Aphrodite
by Salvador Dali

 

Meu rosto era tão limpo

Tão claro

Tão lavadinho...

 

E foi empoeirando-se aos poucos...

 

Cobriu-se de nódoas e fungos

virou essa mancha escassa

que foge do meu espelho.

 

Minha alma era tão limpa,

Tão clara

Tão lavadinha...

 

E foi desfazendo-se aos poucos...

 

Desmanchou-se em brumas e fumaças

Virou essa nuvem suspensa

Desalentada, enfraquecida.

 

Meu sonho era tão limpo,

Tão claro

Tão lavadinho...

 

E foi sumindo-se aos poucos...

 

Transfigurou-se, leve e mofino,

Virou bafio de coisa velha,

Indefinidamente à espera.

 

04/02/04

 

 



Escrito por Day às 14h57
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Escritores da Estácio-Letras/Barra World

Marcelo Serrano Lopes

EU SEI, EU SEI

Eu não estive aí daquela vez
Você também não veio quando quis
A gente sabe que não é por mal
Viver é cada dia mais veloz
Há muito já não ouço a sua voz
Que deve ter mudado, eu já nem sei
Se a cor do seu cabelo agora tem
Mais grave ainda ou o mesmo velho tom
Talvez eu reconheça pelo olhar
Se a gente se encontrar e sem querer
Trocar umas palavras na estação
De uma linha futura do metrô
Com nossos netos pegos pelas mãos
Vou esquecer e você vai lembrar
Daquele ano em que, no reveillon
Nos encontramos lá na beira-mar
E eu vou falar daquele carnaval
Que na verdade ainda não passou
E vamos rir de novo pra valer
A gente, que se via todo dia
E ria junto até sem ter razão
Vai seguir, cada um pro seu lugar
Pela calçada larga, quase hostil
Numa quinta qualquer do mês de abril
Se o nunca mais não nos interromper
E mesmo se a gente não se abraçar
Que intimidade é coisa que se esvai
Com o tempo, este tremor que tudo rui
Um gesto vai fazer você saber:
Você andou comigo aonde eu fui

 

NÃO QUERO DIZER-TE NADA

Não quero dizer-te nada
Assim como a história que conto
As letras eu cato na estrada
E arrumo de qualquer jeito

Não quero dizer-te nada
Qualquer verdade eu aceito
Do verso me basta a cilada
Armada dentro do peito

Não quero dizer-te nada
Escrevo para tocar
Com as pontas das palavras
A parte ainda intocada

Não quero dizer-te nada
Qualquer verbo me convém
Pois na mão dupla da estrada
O que toca é tocado também
 

DESENREDO

Caminhando nas ruas do centro
Vens a mim de repente
De um modo intermitente e esparso
E alternadamente ardo
Por gelar completamente

E se disfarço e corro
Atravesso, passo largo ao pensamento
Em ti mesmo logo adiante esbarro
Na calçada do sentimento
Furtiva a sorrir de novo

Não posso andar assim, de encontrões contigo
Sem poder dizer qualquer coisa
De amigo, de amor, de socorro
Não ouves as palavras que digo
São tolas?

Figuras por toda parte:
No espelho do coletivo
No silêncio do ambulante
Nos pés descalços dos meninos (futuros desatinos)
No cuidado do entregador de flores
Na menina que segue alegre, carregando as sapatilhas
Nos rostos pálidos nas filas
Na moça que desfila anônima
Nos poemas de Cecília num sebo da galeria...

Quase toco em ti
Mas dissolves
Para surgires mais adiante noutro ponto
Faminta, a devorar-me as horas
Adias o verso que era urgente

Lasciva, latente
Patética poesia.


Escrito por Day às 14h54
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ANJO DE PRATA
 
www.brodeurart.com
 
Um salto no escuro

Luis Valise

Visitar cemitério no verão é fogo. O labirinto de túmulos lança línguas de calor em torno do pescoço de Denise, e aqueles caminhos de chão irregular, de pedras desniveladas acabam com o salto agulha que ela não dispensa nem morta. O Alencar tanto insistira que acabou prometendo, e agora era aquele inferno.


- Você vai me visitar no cemitério, no dia do meu aniversário? Promete? Jura?


Denise prometeu, jurou, o Alencar estava tão magrinho, olhos fundos, um fiapo de voz embalada no mau-cheiro que vinha das entranhas corroídas pela coisa ruim... Sentada no criado-mudo, capuz, foice desembainhada, a morte acompanhava o papo com ar de enfado. Pouco ligava se a promessa seria ou não cumprida, só estava ali esperando o instante escrito nas estrelas, quando ela passaria o fio da lâmina sobre os cabelos ensebados: o Alencar sentiria um calafrio descendo pelo pescoço, seu peito emitiria um ronco de porco fuçando trufas, e suas falanges, falanginhas e falangetas restariam semi-curvas e abandonadas sobre o lençol azul. Um silêncio tantinho carregado de horror, e Denise não saberia dizer se o que sentiu era tristeza ou medo da liberdade. A enfermeira encostou o estetoscópio no peito descarnado, e com dedos experientes de treinador de passarinhos cerrou as pálpebras do defunto. Denise colocou os óculos escuros para ocultar a ausência de lágrimas.


Foi um enterro com poucas pessoas, porque Alencar era sujeito discreto:


- Só a família, e já é muito.


Com aquele salto agulha Denise não poderia mesmo ficar sozinha muito tempo, e quando resolveu reformar o apartamento conheceu um vendedor de persianas que começou lhe dando pêsames, e, dizendo que a vida é mesmo assim, acabou dando palpites na escolha de uma nova cama de casal.


A família do Alencar achou aquilo um escândalo, e piorou quando soube que ele era casado. Uma ex-cunhada veio tirar satisfações:


- Você ficou louca, Dê? Meu irmão nem esfriou, e você já está com outro, ainda por cima casado? Denise não caiu do salto:


- Lógico, queridinha! Melhor um casado que um com câncer.


A vida não é cinema, e logo o vendedor foi cantar em outras janelas. Mulher fiel, Denise manteve a promessa, e todo ano visita o túmulo do Alencar no dia cinco de fevereiro. Este ano caiu num sábado de carnaval, e ela dispensou viagem com uma turma de amigos ao litoral. Uma gota de suor escorre da têmpora. Denise passa a ponta dos dedos e sente os cabelos colados à testa. Por que o Alencar não nasceu em agosto? Um salto cravado na terra faz seu pé escapar do sapato. Denise apóia-se na beira de um túmulo de mármore negro, enfia a ponta do pé e puxa o sapato para cima. O longo salto está sujo de barro. Ao calçar o sapato nota as veias saltadas sobre o peito do pé. Naquela idade o salto exige mais coragem que elegância.


De longe vê uma mulher parada junto ao túmulo da família do Alencar. Aproxima-se, cumprimenta a mulher, e pára defronte ao túmulo vizinho. Queixa-se do calor. A outra mulher é mais nova, está bem-vestida e tem um lenço apertado entre os dedos. Denise, cínica:


- Marido?


- Namorado. Quer dizer... (baixando a voz) amante. Éramos amantes. Apaixonados.


- Que lindo isso... Durante quanto tempo?


- Quatro anos. O homem da minha vida. Agora, nunca mais...


Denise examinou a outra cuidadosamente. Era mais bonita. Mais elegante. E usava salto alto, altíssimos. Investigou se era coincidência:


- Difícil hoje em dia andar com esses saltos, hein? O chão todo esburacado...


- Ele adorava. Por ele eu faço tudo.


Denise se aproximou, e de repente deu um empurrão com toda a força na mulher, que sem ter onde se apoiar caiu para trás, batendo a cabeça nas pedras do calçamento. Se estava desmaiada foi por pouco tempo, porque Denise abaixou-se ao seu lado, tirou o sapato e enfiou o salto sujo de terra em seu olho esquerdo. Todinho, até o fim. A mulher teve um grande estremecimento, sentiu um frio descendo pelo pescoço, e parou de respirar. Denise enfiou o salto do sapato na terra para limpar o sangue. Depois calçou-o, e fez o caminho de volta sem se despedir do Alencar.


 


Escrito por Day às 14h27
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um vôo sobre o mar e as letras

Pérolas da nossa Zona Oeste

Neide Amback

Canção para a Lua (I) 

 

Aqui estou

Lua esbranquiçada

Ergo-te os braços

para receber o batismo

de tuas gazes

 

Profetiza-me

mãe da poesia

lua que já se torna

avermelhada

e se avoluma

entremeando

os meus cabelos

 

Bailei enredada

em tuas gazes

fluindo a trama sutil

dos teus mistérios...

E nesta noite

eles me pertenceram



Escrito por Day às 09h37
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Neide Amback

Canção para a lua (II) 

 

A lua

brincava de esconde-esconde

atrás das arvores

A lua

travessa e trigueira

delineada

no céu cinzento

 

Brinquei

por momentos

com a lua travessa

ela se parece

com a menina

dos teus olhos

 

 



Escrito por Day às 09h35
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Summertime
by Unknown

 

 

Primeira atualização de 2006 do Olhos do Sol !

 

E mais gente talentosa, certo?

Este é o propósito do blog.

 

Desejando que a passagem de ano tenha sido maravilhosa (como foi a minha)

Apresento a atualização dessa semana:

 

  • No “Perólas da Zona Oeste”Naíra Veríssimo! Com apenas 16 anos, Naíra arrasa. É um orgulho ver poetas jovens aqui nos “Olhos”.

**Euuuuu**

 

 

 

  • Inaugurando nova coluna “Anjos de Prata” com um conto do meu amigo Beto Muniz. Beto é o principal responsável pelo sucesso do site dos anjos de prata www.anjosdeprata.com.br

 

 

 

 

  • Escritores da Estácio Barra World, um conto inédito, (!!!) feito especialmente para os “Olhos”, (!!!) do meu amigo querido Gabriel Bozano. Conheci o Boz na OE, e -  grande coincidência – depois ele  foi estudar Letras.



Escrito por Day às 11h31
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  • Abel Silva no “Objeto do Desejo e, finalmente.
  • Uma poesia minha “Baile das mãos”

Ufa! Coisa pra caramba! Mas eu prometo que só vou atualizar os “Olhos” na ultima semana de janeiro. Vocês têm bastante tempo  para ler tudo!

 

Open Window, Collioure by Henri Matisse

Henri Matisse, Open Window, Collioure, 1905, National Gallery of Art, Washington,

 

(Minha amiga Vera do Val (Inquieta) me deu essa imagem de presente. Disse que é a cara do meu blog. É? Não é? É! Obrigada Vera)

 

Beijos

E Feliz Ano Novo.

Escrito por Day às 10h39
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um vôo sobre o mar e as letras

Pérolas da nossa Zona Oeste

Naira Veríssimo

BAGAGEM DE MÃO
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Bagagem

 

Vou fazer uma viagem.

Levo na bagagem

A minha coragem,

A saudade

Dos momentos felizes que tivemos

E da verdade

De todo sentimento.

Carrego também,

Um vazio que você me deixou

Ao partir sem avisar.

Levo o bilhete

Que você deixou

Mesmo sem se despedir.

 

“meu coração é tão fundo

 que dele eu retiro o mundo

apenas para você entrar”

 



Escrito por Day às 16h32
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ANJO DE PRATA
Beto Muniz
 
 
JOANA

-VACA!!!

Xinguei e dei o tapa com raiva, mas não ouvi o estalo emitido pela palma da minha mão. O som breve e seco foi levado para o inconsciente e nalgum lugar da mente meus sentidos despertaram um prazer antigo, gozado todas as vezes que papai matava porco no sítio.

Para os moleques da família o pernil suíno tinha a mesma consistência e volume dum corpo adversário, excelente para treinar os golpes certeiros, decisivos, daqueles capazes de definir uma luta na saída da escola. Por isso, enquanto esperava que os homens da casa retalhassem as carnes separando gorduras, ossos e couro, o traseiro de porco pendurado num dos galhos da mangueira substituía as fuças dos inimigos imaginários - apanhava pelo Pedrinho, aquele fidumaégua. Meus primos treinavam murros e também me ensinavam a fechar a mão corretamente na hora de socar. O polegar devia firmar os demais dedos, os cotovelos levemente abertos e os ombros posicionados. O punho esquerdo servia para tirar a atenção do adversário enquanto o soco direito era arremessado forte, sem dó! Mas esmurrar o pedaço de porco não era meu passatempo predileto. Eu peguei gosto mesmo em estapear o quarto traseiro de suíno. A palma aberta, os dedos juntos, levemente arqueados para emitir som e a mão elevada pouco acima da orelha direita para ser desferida num ângulo reto, descendente. Uma obra de arte! Eu tinha jeito pra coisa. O tapa gritava forte, o estalo doía na palma, mas a mão gozava no tremor da carne gemendo, se abrindo e acomodando a agressão. Eufórico, recepcionando o tremor frio do couro esbranquiçado a cada golpe desferido, eu batia, e batia, e batia.

O rosto branco da Joana estampava os contornos dos dedos e os vincos da minha mão. Era a primeira vez que eu batia numa mulher. Olhos arregalados ela ainda estava assimilando a agressão quando repeti o tapa. Eu nem lembrava mais o motivo da raiva, do xingo e do tapa inicial. O prazer tomara posse de mim e sobrepujara todos sentimentos e emoções quando minha mão afundou na carne quente, macia e aconchegante pela segunda vez. Dessa vez sem xingo! Só para confirmar que a cara da Joana era incrivelmente melhor de se estapear que a bunda fria de um leitão. Redescobri algo em que eu era bom, eu ainda levava jeito. Eu quis, até pensei em repetir, sentir novamente a mão estalando gostoso na bochecha morna da Joana, mas não tive tempo.

- VACO!! - e a mão espalmada encheu minha cara de estalo, dores e calores.

Joana reagiu mais por susto. Estava tão surpresa, agoniada e assustada quanto eu, mas acredito que não foi a dor, nem a coragem que a fez devolver o tapa e o xingo. Foi sua dignidade. Ela tinha essa coisa de igualdades, direitos iguais, dente por dente ou olho por olho. Tudo para ela tinha que ser nas mesmas condições... Mas eu já tinha pegado gosto! Durante um bom tempo, mesmo sabendo que Joana ia retribuir, eu metia a mão na cara dela.

 



Escrito por Day às 15h26
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Escritores da Estácio-Letras/Barra World

GABRIEL (BOZ) BOZANO

 

Livre

A planície era deserta, a água evaporava de sua pele e do radiador do carro sem combustível, o vento era quente demais, balançava a folha colocada meticulosamente na máquina de escrever enquanto as teclas bronzeadas refletiam seus olhos distantes.

Foi tudo tão rápido. Tantos arquivos perdidos entre bytes e dados apagados de memórias virtuais sem eletricidade. Tantas palavras perdidas por mentes que agora jogavam xadrez com a morte. Tudo arruinado por um cataclismo viral mundano, nascido de um pato Tailandês, que se espalhou mais rápido que aquele e-mail cheio de fotos pornográficas daquela estrela pop. Só o que lhe restou foi uma folha de papel em branco e uma antiguidade de escrever siamesa de teclas cor de bronze e tinta hesitante.

Era uma antiguidade por ter sido adquirida pelo bisavô de alguém em um mercado de pulgas londrino e comprada por ele em um site de leilões. Pagou com o dinheiro que ganhou vendendo o avatar guerreiro de um jogo virtual que ficou mais tempo no ar do que o site da ONU, enquanto a epidemia se alastrava como containers de cd's piratas. Era siamesa por ser uma máquina de escrever Smith Premier adaptada, com teclados ofuscando caracteres de uma língua desconhecida para ele, que ele usava para entreter convidados em festinhas eletrônicas que fazia em seu loft descolado. Era agora um irmão
siamês colada a sua cintura, uma apêndice de sua existência, mais vivo do que ele pelo poder de criar algo para uma posteridade inexistente, uma posteridade onde sua voz, sua mente e seu corpo haviam sido expulsas do show de hip-hop por um segurança invisível.

Agora queria escrever seu epitáfio de covarde, depois de fugir por entre cadáveres urbanos e tosses terminais, para uma estrada sem fim que cortava uma planície áspera e seca.Tinha gasto meio tanque quando começou a tossir sangue.

Iluminado por um sol indiferente, digitou como nunca havia digitado antes, como se fosse ano novo, como se fosse um casamento, como se fosse seu nascimento, teclas sonhadas por um inconsciente que acreditava em vida após a morte e ressurreição.

Pouco tempo depois morreu, sem saber que havia escrito a poesia mais linda que já existiu.

Pena que os poucos que sobreviveram, nunca aprenderam a falar siamês. 








Escrito por Day às 14h16
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