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ah, se eu tivesse escrito isto..
Ah, se eu tivesse escrito isto...
Umberto Krenak

Bicho de gente
- Naldo, êi, Naldo, ocê olhou daquele lado?
- O quê, mãe?
A mulher apontou para a coluna de fogo que se erguia no canto do descampado:
- Olhou?
- Não. Tá muito quente lá.
- Vai já, porcaria, aproveita enquanto é dia. Ocê já tem sete ano, num pode ficá brincano; se a gente bobeia, os ôtro campeia.
O menino olhou a multidão que disputava cada canto do lixão.
- Tá bão, eu vou. Enquanto isso, vê se a senhora e os minino pega uns urubuzim pra gente fazê, dos novim, que eu tô cansado de comê rato.
Escrito por Day às 12h13
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Umberto Krenak
bicho
Abriu a lata de lixo, em busca de comida. A barba farta caindo sobre o peito descarnado. Das entranhas, um grito de protesto. Urro de bicho com fome. Levantou a tampa do latão, enfiando as fuças lá dentro pra sentir o cheiro. Nada de bóia. Em vez, um verso. Um não. Vários. Um livro.
Quando a polícia recolheu o corpo - desnutrição, disse o legista - tinha uma página aberta entre as mãos:
Vi ontem um bicho,
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
(Manoel Bandeira)
Escrito por Day às 12h10
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Ah...se eu tivesse escrito isto...
Rubens da Cunha

Edgar Degas
Sou mulher de apelos frágeis, pêlos fáceis, fêmea e banho.
Sou mulher de ontem.
Nos dedos: um resto de sêmen. Nos ouvidos: um rastro de adeus.
® Rubens da Cunha
Escrito por Day às 17h18
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Ah, se eu tivesse escrito isso...

Conceição, Conceição!
"Dico, che quando l'anima mal nata..."
(Dante, Inferno, Canto V)
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora - bem, não era propriamente o que se poderia chamar de senhora, tampouco uma donzela -, e isto não faz tantos anos assim. Entrava eu na casa dos "enta" (conheces, caro leitor, a contagem dos "enta", aquela que nos leva em seqüência até o fim do túnel?); ela, numa idade indefinida entre os quinze e os vinte. Vinte? Pois bem. Havendo combinado com uns amigos irmos à missa do galo (brincadeirinha: a verdade, hipócrita leitor, meu semelhante, é que íamos mesmo é para um embalo-de-sábado-à-noite), foi aí que a conheci. Assim.
A casa onde ficaríamos hospedados (quanto eufemismo!), digo, a casa onde todos íamos cair naquela madrugada, quando voltássemos da farra, não era um cortiço, não era sequer um puteiro, tampouco chegava a ser de fato o que se identificaria como lar. Conceição, a dona da casa, (olha, este foi o nome que ela me deu para a ocasião, viu?, pois bem que poderia também se chamar Laura, Eneida, Inês ou Beatriz) não era uma prostituta, nunca tinha ouvido a canção do Cauby, mas trazia no rosto traços de uma ingenuidade amarga; muita carência, talvez, sabe?, mas dissimulava - assim como já o fizera Capitolina, lembram? Conceição possuía um temperamento moderado, sem extremos: nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Na verdade ela era o que costumamos definir neste final de século em que vos falo como garota de programa ou, no inglês de Copa, scort girl. Era para lá que iríamos, imaginando que Conceição pudesse saber de sexo como poucas - e isto para ela talvez equivalesse a amar. Eu me lembro muito bem.
Naquele dia era a primeira vez que ligávamos para aquelas mulheres. Queríamos a noite; alguma diversão, nada de stress. Quando chegamos, Conceição atendeu-nos com um roupão de seda, desses que vinham do Paraguai, entende?, mas chic; pela transparência, via-se: não veio sobre chinelinhas, mas também não trajava calcinhas - maravilha -, pisava era com uma sensual sandália de salto agulha, finíssimo e longo, como um punhal.
Escrito por Day às 09h36
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Continuação...
Não preciso dizer que ela era boa, muito boa. Perguntou se eu não conhecia sua amiga, apresentando-a, uma moreninha que sentava sapeca no sofá da sala deixando pendentes os seios e fazendo movimentos obscenos com os lábios. Não tardaram a aparecer pequenos e grandes também. A estas alturas todos se davam contam do que viéramos ali fazer - e de que Conceição preferiria a princípio dedicar-se a mim. De fato, cada qual tomou seu rumo e lugar.
Assim que a moça aproximou-se, comecei a dizer-lhe nomes infames, palavrões; ondas de beijos lascivos, beliscões e xingamentos levemente sussurrados ao ouvido - como manda o figurino -, pois afinal tudo era mesmo um grande mis-en-scène: fazia parte, percebe? E a moça não deixava por menos. Lembro: pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa (talvez não fosse mesmo de mármore, mas isso agora também não importava muito), o que vale é que com esse movimento eu, que estava numa privilegiada posição, via-lhe as duas metades em simetria do traseiro, muito claras, e menos magras do que se poderiam supor. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. (Não, leitor obtuso, não houve o prometido, tampouco o esperado, dadas as circunstâncias.) Porque, a certa altura da coisa, a moça desvencilhou-se e, como se tomada por alguma reminiscência, cismou de passar-me algo como um café, dizendo uma série de coisas ininteligíveis, papo de tirar tesão, sabe?, como diz o outro. Confesso: já me acontecera antes - e em episódios até menos rodrigueanos -, pensava. Mas, tudo bem.
Passava da meia-noite e, agora, para matar a tensão, comecei a dizer o que pensava das festas da cidade e de outras coisas que me vinham à mente, talvez a sugerir com isto que já me fosse embora. Parecendo não entender, a mulher argumentava que todas as festas se pareciam, que não valeria a pena etc, para que eu ficasse, o café era quase fresquinho, havia também uns bolinhos: eu tenho um sobrinho que fez aniversário, sabia? Teve uma festinha etc etc etc. Não entendi.
Já vestida, deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado. Não, não era em um canapé, caro leitor; estávamos mesmo no chão. Lembro que, quando então a moça se debruçava para sentar, voltei-me, e pude ver, a furto, o bico dos seios; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se. As calcinhas, recordo-me, eram pretas, talvez até rendadas. Foi nesse mesmo instante que, a custo, fechei a boca para ouvir o que ela contava, enquanto sorvia sem gosto o tal café.
Escrito por Day às 09h34
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Continuação...
Saíra da periferia muito cedo; aos 11 já tivera seu primeiro homem; a chamada vida fácil veio na seqüência. Passou a gostar do que fazia, mas quando pensava em vingança, contudo, não era bem isso o que queria, percebe? À certa altura, a moça não tinha mais os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes. Disse que foi barra, coisa feita pelo próprio pai - não pasme, leitor! - que a bolinava nas madrugas. A mãe fingia não saber sabendo; via mas calava; então o medo, e não só: o asco, o nojo, o ódio compunham sua macabra sinestesia. Enquanto dizia isso suas mãos tremiam - estranho - como se tivesse arrepios. Ela, que era até uma figura linda, perdia ali quase todo o brilho. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que a perseguia um pesadelo recorrente desde criança: despejava água fervente sobre as têmporas do pai e via-lhe sair dos ouvidos vermes que se multiplicavam aos bandos. Dizendo isto, ria-se como uma bacante, despejando o café, como se regasse uma planta maldita e etérea, sobre uma foto que jazia na pequena estante do quarto. Quem será?
Quando cansou do passado falou do presente. Disse que precisava representar seu papel, que precisava cuidar mais do filho que vivia com a mãe que ia fazer seis anos e que há dois anos não o via etc. Concordei, para dizer alguma cousa, isto é, coisa. Queria acabar logo aquela conversação, afinal, estava ali por propósito muito bem distinto (o cartaz nos classificados prometia - e pagamos um bom preço). Já amanhecia, talvez cinco ou seis da manhã.
Há impressões dessa noite, que me parecem truncadas ou confusas.
Que história louca. Depois de chorar baixinho disse que podia trabalhar de novo, se eu assim o quisesse. É claro que se havia perdido todo o tesão nos confins da manhã. Recusei. Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. Numa vitrola distante e imaginária Cauby gritava: Conceição, Conceição! Com um balanço de corpo, Conceição entrou sabe-se lá pra onde, batendo a porta - e eu saí na manhã sem destino.
Mais tarde descobri que Conceição morava no Engenho Novo e que a casa onde ficáramos (o que chamamos aqui de casa, leitor, em verdade não passava de um kitinete) pertencia ao homem que a patrocinava - e que (também descobri) era o mesmo da tal foto, lembram? Nunca mais a encontrei e nem a outras Beatrizes ou Eneidas ou Lauras.
O sol da manhã queimava, e não era o inferno de Dante
Lucio Valentim
Escrito por Day às 09h31
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Ah se eu tivesse escrito isso...
Margaridas

Ela tocou o coração. As duas mãos no peito, delicada. Ainda sangrava. De nada adiantaram os curativos, feitos às pressas, de nada a racionalização. Ainda doía muito. Com cuidado tentou trocar as bandagens. Arrumou-se toda e saiu pela noite. Não adiantou. O sangue continuava a pingar. Procurou o uísque no armário. Quem sabe anestesiasse. Funcionou. A dor ficou mais fininha, mas continuava ali. Extenuada, atirou-se na cama.
Na manhã seguinte acordou boiando nos lençóis empapados. O mundo era vermelho, a chaga não desistia.
Meio sem rumo, foi até a cozinha. Abriu a gaveta das facas. Todas reluzentes. Escolheu a mais afiada.
Com um golpe certeiro abriu o peito e arrancou o coração. Atirou-o pela janela. Suspirou aliviada.
Já mais tranquila, saiu para o trabalho. Ao fim do dia, quando voltou, repicando os saltos das sandálias pela alameda do jardim, viu o coração, abandonado, no centro do canteiro de margaridas. Ainda batia, ainda sangrava.
E as flores, todas elas, estavam tintas de vermelho.
Vera do Val
Escrito por Day às 19h02
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Ah, se eu tivesse escrito isto...

Amphitrite by Raoul Dufy
SURTO
queria mesmo era deitar os olhos na brancura de lápide da página e ver brotar os versos como um surto um parto um porto ter nas palavras uma puta que entrega o corpo por algo menos que trinta dinheiros depois à noite apagar os olhos morrer aos poucos silencio sa mente
marcelo d'ávila
Escrito por Day às 10h51
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